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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

No fim da rua, aparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavalo que sofreava com firmeza e mão adestrada.

Era a personificação do capataz de tropa.

Cabelos compridos e emaranhados, ar selváticos e sobranceiro tez queimada e vigorosa musculatura constituíam um tipo que atraia de pronto a atenção.

Metidos os pés numa espécie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da sela e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercícios da sua lida.

—Nosso Senhor... convosco, disse ao chegar, erguendo ligeiramente a aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.

—Bons dias, Senhor Manecão? respondeu por todos o major, ou melhor, boas tardes... Já sei que desta feita vai de batida..

—Boa dúvida, grazinou o vigário, vai ver a pequerrucha.

Sorriu-se o capataz com melancolia:

—Não é por isso senhor vigário. Não me deixo anarquizar por mulheres; mas, enfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...

Haviam Cirino e Manecão? ficado no meio dos curiosos.

Fitaram-se: um, indiferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio trêmulo

—Este cujo é o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão? adernando no selim para o lado do coletor. A Cula da venda me disse que tinha chegado...

Tem-me cara de enjoado.

—Xi! retrucou o outro, mas tem cabeça. Por aí fez um despotismo de curas.

Cirino, notando que tratavam dele, cumprimentou com um sorriso de amabilidade

—Boa tarde, patrício.

—Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom áspero.

E, olhando para o Sol, acrescentou:

—Vejam lá o que é um homem estar como mulher... a bater língua... A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Senhor major, até mais ver... Senhor vigário, breve estou por cá...

Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão? partiu em boa marcha.

Aproveitando, por seu turno, aquela saída rápida, que rompera a cadela dos que o rodeavam, apertou Cirino a mão do major e tomou rumo do Rio Paranaíba em cuja margem contava passar a noite.

Mal desaparecera, e choveram comentários que nem saraiva.

—Notou o senhor, disse o vigário para o major, como esta mudado? .. todo jururu...

—Nem tanto, contrariou o coletor, nem tanto...

O Senhor Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.

—Hão de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar, que ai há dente de coelho.

Durante aquela noite e muitos dias subsequentes, repetiu a vila todas estas célebres palavras.

—Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, ali há dente de coelho.

CAPÍTULO XXV

A VIAGEM

Às vezes sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem necessidade de dormir

(Mme Du Deffand).

Encantador país! Teu aspecto, teus solitários bosques ar puro e balsâmico, tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda da esperança.

(Carlota Smith).

Cirino em pouco mais de uma hora, transpôs a distancia da povoação ao rio. Também, na légua e quarto que ate lá media só há de ruim o trecho em que fica a floresta que borda as margens da majestosa corrente.

Nessa mata, trazem os troncos das árvores vestígio das grandes enchentes; o terreno é lodacento e enatado; centro de putrefação vegetal donde irradiam os miasmas que, por ocasião da retirada das águas, se formam em dias de calor abrasador e sufocante.

Abundam ali coqueiros de estípite curto e folhuda coroa chamados aucuris, a que rodeiam numerosas lagoinhas de água empoçada e coberta de limo.

Em nada é, pois, aprazível o aspecto, e a lembrança de que ali imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia de tão tristonhas paragens.

Ouve-se a curta distancia o ruído do rio que corre largo, claro e com rapidez.

Como duas verdes orlas refletem-se no espelhado da superfície as elevadas margens, a cujo sopé moitas de sarandis, curvadas pelo esforço das águas e num balancear continuo, produzem doce marulho.

Causa-nos involuntário cismar a contemplação de grande massa liquida a rolar, a rolar mansamente, tangida por força oculta.

Bem como a ondulação incessante e monótona do oceano agita a alma, assim também aquele perpassar perene, quase silencioso, de uma corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.

E quando o homem medita, torna-se triste.

Franca e espontânea é a alegria, como todo o fato repentino da natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metafísica uma relação inquieta e quase dolorosa acima da contingência material.

Ninguém se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrário, aos poucos é que chega como efeito de fenômenos psicológicos a encadear-se uns nos outros.

De que modo nasceu aquela enorme mole de água? Donde velo? Para onde vai? Que mistérios encerra em seu seio?

Largo tempo ficou Cirino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros pensamentos.

(continua...)

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