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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Rapidamente percorremos no dia seguinte a distancia até Nioac, observando com rigor a formatura adotada para atravessar os campos; e o inimigo que nos perseguia a retaguarda não ousou empreender nenhum ataque. Mostrou-se, pelo contrário, muito afoito em bater em retirada, sempre que lhe aconteceu ficar ao nosso alcance.

Costeávamos a margem esquerda do Nioac, e como estivessem a pastar uns bois de tiro, que os carreiros do comboio de mascates haviam abandonado, puseram-se alguns cavaleiros paraguaios a persegui-los. Uma companhia do nosso 21.° e uma peça foram então mandadas contra eles. Voltaram rédeas incontinente e com tanta precipitação que provocaram o riso geral e as vaias de nossa gente.

Era o vau bom; e sem mais demora o atravessamos. A margem direita encontramos o rasto ainda fresco da passagem de muita cavalaria e grande quantidade de papéis rasgados, livros, talões oficiais, sujos e dilacerados que evidentemente provinham do saque de alguma carreta brasileira, aprisionada naquele ponto pelo inimigo e destruída, ou por ele levada.

Algumas fumaças no horizonte ainda nos revelavam a presença do adversário e, pelo conhecimento que da permanência naquelas localidades obtivéramos, supusemos que os paraguaios acabavam de incendiar uma espécie de aldeia, de palhoças, que ali havíamos construído. Fez-nos isto apressar o passo e ao primeiro relance reconhecemos que não nos enganáramos.

As três da tarde estávamos no meio dessas ruínas abrasadas que habitáramos e a que deitamos último e melancólico olhar; o soldado e o viajante interessam-se sempre pelos lugares onde repousaram.

Muito a propósito velo um incidente de ópera-bufa distrair-nos desta impressão tristonha: a reaparição daquele italiano que, já no acampamento da Laguna, nos divertira com as suas jogralidades. Contara-se, mas inexatamente, que morrera, com os outros mascates que, por assim dizer, haviam desertado das nossas fileiras ao atravessarmos o rio Miranda. Deles, habilmente se separara, vagara entre Canindé e Nioac, sem noção do ponto para onde devia rumar, indo de moita em moita, a tremer de medo, não encontrando uma só que lhe inspirasse confiança. Acabara, no entanto, fazendo uma escolha e com tanta felicidade que, naquele mesmo dia. pudera do seu refúgio ver o avanço da nossa coluna. Fora-lhe a alegria tão viva que, por pouco, lhe ia sendo funesta.

O vestuário estrambótico e a precipitação dos movimentos fizeram-no passar por paraguaio. Nossos atiradores da vanguarda sobre ele atiraram. Deixou-se, então, cair como morto, na macega. Após um lapso de prudente imobilidade começou a levantar devagarinho, no ar, na ponta de uma varinha, o cachenê; e depois, vendo que as balas não vinham, um braço, a cabeça; e, afinal, o corpo todo, que não era senão o do nosso amigo e velho conhecido Saraco.

Reconhecendo-o imediatamente, encheram-no os soldados de abraços, cumprimentos e perguntas. Estava num estado de inexprimível êxtase, vendo-se escapo aos perigos onde crera deixar a vida, e de que se via salvo, e ainda barato, à custa da trouxa e de tantos momentos de pavor.

Quanto ao inimigo haveríamos de nos avistar com ele apenas uma última vez, embora lhe tivéssemos ainda que sofrer o efeito da pérfida e cruel animosidade.

CAPÍTULO XXI

Nioac. Decepção; encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruída pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente. Regresso pacífico do corpo de exército. Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.

O oficial encarregado da defesa de Nioac, durante a nossa incursão em território paraguaio, ausentara-se da vila, a 1.° de junho, sem que ali se tivesse notícia da aproximação do inimigo, procedendo assim contra as ordens terminantes de 22 de maio que lhe impunham a defesa, a todo o transe, de um ponto que era a nossa base de operações.

Não é que os víveres lhe faltassem, longe disto, deixara-lhos abundantes o chefe da Intendência. Dar-se-ia o caso que os seus comandados, seduzidos pela vizinhança do rio, e suas matas, houvessem desertado, um após outro, até o largarem inteiramente só? Mas aí estavam todos os oficiais do nosso corpo de exército concordes em atestar o espírito de submissão de nossos soldados aos chefes. Acaso se houvesse dado um "salve-se quem puder" geral não teria podido aquele comandante manter-se em observação pela vizinhança, onde tantos acidentes de um terreno florestado lhe podiam servir de abrigo, à espera de nossa chegada? Afastaria, assim, de si, a responsabilidade, não somente da enorme perda de material como do novo sacrifício de vítimas humanas fruto de tão funesto abandono. Faltou-lhe o animo desapareceu deixando ligado ao nome a reminiscência de uma deserção em frente ao inimigo...

(continua...)

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