Por Franklin Távora (1879)
E o espetáculo sob muitos aspectos importantes, pagava a curiosidade das visitas.
Sendo o boqueirão, por onde meses antes Ângelo passeara com Maurícia, o ponto do sítio que ficava mais perto da capela, mandou Martins decotar as árvores próximas e conduzir para ali cadeiras, a fim de que as senhoras pudessem, sem risco, ver desse recanto ameno o espetáculo festivo. As sete horas, via-se ali reunida a luzida sociedade, que privava com Martins; e ao lado das jovens elegantes, mostravam-se moços de talento e nomeada que ele tinha a fortuna de saber chamar à sua amizade por seus modos francos e obsequiosos. Dos freqüentadores do sítio, só um faltava: era Ângelo. A ausência deste era sentida por todos, mas especialmente por Maurícia, posto que sua discrição não lhe permitisse revelá-lo. Durante toda a semana, Maurícia queixara-se de calafrios e rápidas pontas de febre. Dizia sentir dores pelo corpo e peito, mas a sua enfermidade era moral. Ângelo ausentara-se da casa de Martins desde a primeira noite de novena, aquela em que tivera de Maurícia o mais formal desengano e nisso estava a origem do mal dela. Que fizera durante este tempo? Não podendo vencer a contrariedade e o desgosto, achou um meio de sair desse penoso estado, e de vingar-se ao mesmo tempo da mãe de Virgínia fazendo que ela viesse a ter também o seu quinhão de sofrimento. Demais, ele estava triste e descontente da cidade que meses antes tomara por uma mansão celestial. Não podia ir ao teatro na ausência de Júlia; não podia freqüentar Martins, depois do que se passara com a cunhada deste. Acudiulhe, então, o pensamento de deixar o Recife. Em conseqüência, procurou um amigo político de grande importância para o Presidente da Província, que prometeu nomeá-lo para um dos lugares de promotor que estavam vagos. Inteiramente absorto na promessa, Ângelo, enquanto ela se realizava, fugia da sociedade que costumava freqüentar antes. No dia da festa, meteu-se em um dos carros da linha de ferro do Recife a Apicucos, e, chegando a este povoado, começou a matar o tempo andando de um lugar para outro, visitando antigos conhecidos, passando horas no hotel entregue à mais cruel monotonia.
Antes de começar a festa, havia ainda em alguns dos hóspedes de Martins a esperança de que Ângelo repararia a longa ausência durante toda a semana, comparecendo agora. Maurícia, posto que, mais competentemente do que ninguém, ajuizasse do despeito e contrariedade de Ângelo, não podia capacitar-se de que ele tivesse ânimo para fugir de assistir a sua despedida. Dentro em breve, porém, teve a prova do quanto se enganava; e, quando terminado o Te-Deum, sem que o jovem advogado houvesse ainda aparecido, a sua tristeza aumentou de intensidade e crueldade. Muitas lágrimas silenciosas recebeu em segredo o seu lenço perfumado, muitos suspiros ela os abafou cuidadosamente, a fim de que não fossem suscitar desconfianças que lhe seriam desairosas.
Concluída a cerimônia, não houve instâncias de Martins, não houve rogativas de Eugênia e Sinhazinha que dissuadissem Maurícia de seguir àquela mesma hora para o Caxangá. A todos os pedidos, respondeu dizendo que lhe estavam fazendo mal os ares da estrada, e que deveria ter pressa em fugir deles; os ares nunca tinham sido mais saudáveis; os aromas das flores dos cajueiros e das mangueiras saturavam a atmosfera de átomos balsâmicos e gratos. Não houve nada que a retivesse no sítio. Às onze horas, a porteira do engenho batia sobre a carruagem que entrara conduzindo Maurícia, Virgínia e Martins.
O afastamento de Ângelo e a tristeza de Maurícia lançaram no espírito de Sinhazinha grandes suspeitas, Aquela retirara-se sem lhe dizer uma só palavra sobre a sua prometida intervenção. Somente uma vez dizendo-lhe a filha de D. Sofia que lhe parecia não ter diminuído a indiferença do advogado, visto que nunca mais ele tornara ao sítio, ela lhe respondera:
— Não perca as esperanças. O tempo acabará tudo.
Parte destas suspeitas fora insuflada por D. Sofia, a quem a filha revelava todas as ocorrências que lhe diziam respeito.
— Tens tanta confiança em D. Maurícia, Sinhazinha, como se ela fosse tua mãe ou tua irmã. Se pensas que há de fazer mais por ti do que por ela, está enganada.
— Não diga isso, minha mãe. D. Maurícia tem muito boa alma.
— Tola! Não passas de uma tola! Eu tudo estou vendo e pelos domingos vou tirando os dias santos. Já observaste que o Dr. Ângelo só se senta ao pé dela, e que só com ela tira conversa?
— Quem é que não gosta de conversar com D. Maurícia, que é tão instruída e bem educada?
— Não seja simplória, minha filha. Eles aproximam-se um do outro porque alguma coisa existe entre eles dois. Que quer dizer D. Maurícia compor um acompanhamento para uma poesia do Dr. Ângelo, mandar-lhe traduções feitas por ela, conversar com ele horas inteiras? Não te iludas, Sinhazinha!
A menina começou atentar nestas traiçoeiras sagacidades do amor maternal e achou que havia fundamento. As suas suspeitas redobraram com a intensidade da moléstia espiritual de Maurícia, que lhe parecia ocasionada pelo amuo do bacharel.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.