Por Franklin Távora (1876)
O clarim soou mais perto, e com as vozes deste instrumento chegou aos ouvidos do mancebo um retintim de espadas e facões que indicava, junto com as sobreditas vozes, a existência de um corpo militar por aquelas bandas. Andava de feito por ali um dos piquetes do regimento de Cristóvão de Holanda, o qual, depois de ter batido algumas matas suspeitas, se recolhia à vila, donde havia partido na noite imediata.
Cabeleira depôs o cadáver de Luísa sobre os ramos, e afastou-se para dentro do mato não sem novo sobressalto, à vista do risco em que se achava.
Depois de ter desaparecido, voltou novamente e suspendeu em seus braços o corpo com o intuito de conduzi-lo consigo para dentro da espessura. Mas quando ia a entrar aí com o triste resto do seu tesouro, um homem apareceu na extremidade da clareira. Era o Marcolino que, havendo-se encontrado com o piquete ao cair da tarde anterior relatara o que havia acontecido junto da vazante, e se oferecera para o guiar no rumo do fugitivo.
Este, vendo que a sua vida estava em perigo, e que a perda de um momento podia ser-lhe fatal, resignou-se a deixar o precioso despojo, e internou-se de uma vez no mato.
Com pouco uma companhia de soldados penetrou no pouso onde Marcolino já havia dado com o corpo de Luísa
— Cheguem, cheguem depressa. Dormiu aqui o assassino. Ali está a fogueira ardendo ainda, e aqui a sua própria companheira, que ele deixou morta. Ah ! malvado !
Os milicianos rodearam o cadáver de Luísa sobre cujo rosto não seria difícil descobrir ainda vestígios das lágrimas do desgraçado mancebo.
— Perverso! Perverso! — exclamaram alguns deles indignados do que viam, mas não sabiam.
— Não satisfeito de ter matado mulheres e meninos no fogo, veio tirar aqui a vida a sangue frio àquela que o quis acompanhar.
— Não percamos tempo — observou Marcolino. — Ele deve estar perto daqui. Vamos, minha gente, vamos descobrir o assassino enquanto ele não nos escapa.
É verdade. Alto frente. Toca a corneta. Tiririca.
— Não toques, que se o Cabeleira nos ouvisse, ninguém mais lhe punha o olho em cima, quanto mais a mão.
— Se não fosse esta corneta, já tínhamos pegado o cabra — observou Marcolino.
— Qual cabra nem meio cabra. Aquele que tem de pegar o Cabeleira está ainda por nascer.
E entraram na espessura.
CAPÍTULO XV
O Cabeleira desapareceu no mato como desaparece o peixe no seio da corrente caudal.
Os milicianos, bem que homens igualmente rústicos, e conhecedores das florestas, não tinham todavia o longo uso da espessura, uso que, ainda neste particular, tornava superior a eles o valoroso malfeitor.
Espalharam-se em diferentes direções, a esmo, sem plano, e por isso sem probabilidade de bom resultado.
O piquete não era numeroso, e vinha quase debandado quando encontrou o Marcolino que denunciou o ponto onde havia deixado o fugitivo.
Poucos deram crédito às palavras do matuto, e só por desencargo da consciência alguns se prestaram a dar a busca que ele propôs, e que, a seu parecer, não podia deixar de surtir o desejado efeito.
Gastaram quase o dia inteiro na diligência.
Por fim, dissuadidos de descobrirem o assassino, cada um tomou o caminho mais curto para sua casa, dando alguns ao diabo o Marcolino por tê-los feito andar para dentro e para fora do mato inutilmente, e acreditar em esperanças que não se realizam.
— E veio você fazer-nos perder mais um dia, compadre Marcolino — disse um dos milicianos, aborrecido e fatigado do infrutífero lidar. — Nem você chegou a ver o Cabeleira. Viu algum rangedor de cachos compridos, e já pensou que era o mameluco.
— Eu não digo uma coisa por outra. Vi-o com estes olhos que a terra fria há de comer. Falei com ele como estou falando com você agora. Lá o ele ter voado como passarinho, ou Ter-se metido pela terra adentro como tatu ou jararaca, é caso à parte.
— Você viu periquito e cuidou que era arara ou canindé — replicou o miliciano.
— Compadre, você está fazendo pouco em mim. Ora, deixe-se disso, que eu não sou de lérias, como você bem sabe. É tão certo que vi o Cabeleira, que até lhe tomei o cavalo que ele me havia furtado, o meu alazão.
— Pois, então, pode montar no seu alazão e voltar à casa. De lembranças à comadre Maria e lance a bênção a meu afilhado Gazuza. Se encontrar outra vez o Cabeleira, de-lhe um abraço por mim, um beliscão e uma boquinha.
— Eu, se tivesse ainda o meu alazão, juro-lhe que havia de desencavar o Cabeleira, ou com a vida ou com a morte.
— E que fim levou o seu quartau ?
— Espaduou de muito andar. Parece que desde a hora em que o maldito demo o tirou do meu quintal não soube mais o que era comer nem beber, e andou num cortado.
— Se você quer servir-se do meu cavalo castanho, ele nos está ali ouvindo. Desta vez estou falando sério.
— Onde está ele ?
— No sítio do Felisberto, aonde o mandei com um costal de mandioca.
— Pois aceito, meu compadre, a sua proposta. Hei de mostrar-lhe que o que digo, digo. Se eu não descobrir neste matão, ou por estas beiradas de rio o Cabeleira, hei de saber notícias dele seja onde for. Também de uma coisa tenha você certeza: quando ouvir sua mulher dizer: "Aí vem o compadre Marcolino no cavalo castanho", fique logo sabendo que, se eu não deixei o Cabeleira na embira, o deixei no buraco.
Os dois matutos achavam-se na margem esquerda do Capibaribe.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.