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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

A caravana de Mestre Mateus, que se compunha dele e sua mulher, de uma filha casada, Maria, e mais dois camaradas, pôs-se a caminho em princípios de Julho, e tangeram alegremente pela estrada do Muquém o seu pesado carro rodeado de esteira de taquara e toldado de couro, que por espaço de dois meses lhes tinha de servir ao mesmo tempo de habitação e de veículo por aquelas desertas regiões.

Os carros puxados a bois, com seu eixo móvel, pesados e vagarosos, são por certo grosseiros veículos, que bem denunciam o atraso dos meios de condução no interior do nosso país. Mas talvez por isso mesmo que revelam a infância da indústria da viação, tem um não sei quê de primitivo e poético, que enleva a imaginação. Eu nunca pude ver sem um singular e indizível sentimento de melancolia essas grandes e pesadas máquinas cobertas de couro, arrastadas vagarosamente por vinte e mais bois, quebrando com seu chiar agudo e monótono como o canto da cigarra o silêncio das solidões, atravessando os desertos em lentas e peníveis jornadas. São casas ambulantes, que muitas vezes vão transpondo para grandes distâncias famílias emigrantes com todos os seus haveres, seus móveis, animais e aves domésticas. Logo que o sol descamba do meio-dia fazem alto à beira de qualquer córrego, onde haja abundante pastagem, disjungem os bois, e aí estabelecem durante a metade do dia e durante a noite uma cômoda e agradável vivenda, qual se continuassem como sempre sua vida simples e uniforme. O rio lhes fornece água fresca e por vezes peixe abundante e saboroso; no mato acham mel, a caça e o palmito; a criança embala-se em seu berço à sombra do toldo do carro: em roda deste mugem as reses, vagueiam aves caseiras, e reina movimento, ruído e alegria como no lar doméstico.

Assim iam os nossos romeiros, pelo que depois de uma viagem vagarosa, mas alegre e sem acidentes, chegaram enfim poucos dias antes da festa ao vale triste e retraído em que se achava edificada a capelinha de Nossa Senhora da Abadia. Já aquele sítio ermo e sem habitação alguma durante o resto do ano se ia transformando em uma pequena cidade de barracas, carros e ranchos de capim ou palhas de coqueiro alinhados e formando ruas freqüentadas por uma multidão de romeiros, que afluíam de todas as partes. Depois de ter escolhido o lugar em que deviam plantar sua tenda rodante, mestre Mateus tratou de fazer um apêndice a ela formando com os arreios do próprio carro uma barraca coberta de folhas de coqueiro, e aí estabeleceu-se com sua família de romeiros.

CAPÍTULO II

O RECONHECIMENTO

Na manhã seguinte, apenas a primeira barra do dia clareou os horizontes, mestre Mateus tratou pressuroso de despertar sua gente para irem ter com o ermitão, antes que a turba dos romeiros o rodeasse e tornasse difícil o acesso junto dele.

— Vamos, disse ele tomando Maria pela mão, vamos procurar o santo ermitão, entregar nossas esmolas, e rezar aos pés da Santa Virgem. Tenho fé, minha pobre Maria, que Nossa Senhora da Abadia há de curar-te desse teu mal e aliviar-me também os meus sofrimentos.

Maria, acostumada há longos anos a obedecer automaticamente a mestre Mateus, acompanhou-o silenciosamente sem nada compreender do sentido de suas palavras, e juntamente com Josefa se encaminharam para o lado da capela. O sol, que começava a aparecer, cintilava sobre o orvalho, que a noite peneirara sobre os tetos de coqueiro dos ranchos e as cobertas de couro dos carros dos romeiros, onde começavam a rumorejar a vida e o movimento como em um vasto colmeal.

A alguma distância da capela os três romeiros avistaram o virtuoso eremita de joelhos sobre a relva do adro em face da ermida com os braços abertos embebido em extática oração. O sol, que surgia por defronte deles, destacava vivamente os contornos da figura venerabunda do ermitão naquela piedosa e solene postura, e rodeando-o de esplendores o apresentava aos olhos dos romeiros como a imagem viva desses patriarcas do cristianismo cingidos com a auréola da bem-aventurança. A barba grisalha lhe descia ao peito e os grandes olhos pretos se volviam ao céu como que nadando em profundos êxtases. A tez crestada da fronte e do rosto era atravessada por longos e fundos sulcos, e a cabeça pendida para trás se lhe debruçava sobre os ombros alquebrados. Via-se, entretanto, que sua idade não podia ser muito avançada, e que aqueles prematuros caracteres de velhice eram resultado de longos sofrimentos e fadigas extremas.

Nem em sua figura nem em suas palavras se revelava desejo algum de impor à multidão e de atrair cultos e venerações de que se julgava indigno. Seu porte era modesto, e em seus olhos e em toda a sua fisionomia lia-se uma dor sincera, uma verdadeira e profunda compunção.

(continua...)

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