Por Visconde de Taunay (1872)
Na sua loja de fazendas, ao rés-do-chão, reúne-se a melhor gente da localidade, para ouvi-lo dissertar sobre política, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos anos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou a porta crianças pálidas das febres do Rio Paranaíba e barrigudas de comerem terra.
Também aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.
Atravessou Cirino a vila, e passando por defronte do senhor Taques saudou-o com a mão, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as próprias proezas, que muitas tinha aquele estimável cidadão, senão também as façanhas dos antigos sertanejos, histórias que sabia na ponta da língua.
—Lá vai o doutor, disse um dos presentes a palestra da loja.
—O Senhor Cirino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é isso? Por aqui?
—É verdade, respondeu Cirino, e vou de passagem; também por pouco tempo: talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia saído para a rua, de modo que o moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quase à anca do animal; afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto. Compreendeu o major o alcance da situação.
—Cada qual tem os seus negócios particulares, disse logo para começar; mas, se não há segredo que quer dizer esta sua volta?
—Já devia estar bem longe de acá, observou um sujeito. Há quase dois meses que parou aqui na cidade e...
Espere, interrompeu o vigário, não há tal dois meses. O doutor passou por esta rua há um mês e vinte dois dias, às oito horas da manhã.
—Pois bem, continuou o major, tinha tempo. de sobra para estar já por bandas de Miranda...
—Isso, se fosse escoteiro, replicou Cirino, reparem que levava cargas... e, demais, viajava curando...
—É verdade! confirmou o coletor (homem esguio, que trazia um chapéu muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar... falar...
—Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigário com ar rusguento.
—Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral... Em geral. Eu não...
—Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este tempão todo?... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatório.
—Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cirino meio perturbado, no...
—Não é tão perto assim, objetou o vigário. Uma vez...
—Ouçamos, senhor padre, atalhou o coletor denunciando rixa velha com o clérigo. O moço não disse que seja perto daqui...
Repetiu o major as palavras de Cirino, acentuando-as de certo modo:
—Então o doutor já estava quase perto do Sucuriú, não é?
—De fato. Ali encontrei uma pessoa que me devia, há meses um dinheiro...
—Um dinheiro? perguntou o vigário. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?
—Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sôfregas.
Prosseguiu o major implacável:
—Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra! . .
Foi quase a balbuciar que Cirino procurou continuar:
—Sim... certo tropeiro... mandou ordem para mim cobrar... de um parente uma bolada... Também eu tinha que... pagar outra pessoa... que...
—Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor velo receber dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa... —Por certo, apoiaram os circunstantes.
Cirino fez repentina parada nas suas explicações.
—Também, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...
—Vai até as Melancias? Indagou o coletor ajeitando o nome de um pouso para ver se acertava.
—Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de tão terrível inquirição, mudou de tática.
—Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...
—Já adivinhei, exclamou o vigário cortando a palavra a Cirino, o doutor vai casar.
—Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguém lhe vai roubar a noiva!...
—Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar às mãos, ponderou o padre.
Por instante, deram o acanhamento e o silêncio de Cirino azo a muitas observações.
—Parabéns! dizia um.
—Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
—Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não há nada...
Prosseguiu o padre:
—Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos... E o senhor e o Manecão.
—Na verdade, concordaram os presentes.
—Mas, onde se meteu ele? perguntou um deles.
—Há pouco estava aqui...
—Quem? o Manecão?
—Sim...
—Ali vem ele! anunciou alguém
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.