Por Visconde de Taunay (1871)
Se algum erro se cometera, devia ser atribuído aos próprios mascates, quando ao passarem pela colônia de Miranda, tinham recusado ouvir os conselhos de Vieira de Resende, um deles, o mesmo que víramos figurar na tomada de Bela Vista. Propusera-lhes este homem, tenente da guarda nacional de Goiás, nortear a marcha do comboio para a estância do Jardim, a cinco léguas, apenas, da colônia. Ali tratariam de se emboscar na mata do rio, espera de nossa coluna, que não podia deixar de lá chegar. E com efeito sua marcha para o norte assinalava-a no horizonte a fumaça dos incêndios que diante dela se renovavam sem conseguir detê-la. Mesmo que se aventasse alguma hipótese funesta, as vinte e duas carretas de mercadorias teriam formado excelente entrincheiramento contra o embate, quando muito momentâneo, de um troço de cavalaria, pois que, aliás, não podíamos, de modo algum, tardar em vir libertá-los. Debalde tentara Vieira Resende fazer ainda valer uma consideração decisiva, em relação a mercadores; acenara-lhes com o ensejo de venderem as mercadorias com belo lucro, exatamente no momento em que famintos iríamos sair daquelas planícies devastadas pelo fogo. Nada pudera persuadi-los. O lado militar de tal projeto, muito de acordo com as tendências aventurosas de quem o advogava - era esta a opinião geral - assustou aquela gente cujos sobressaltos cresciam na razão direta dos boatos de catástrofe que por toda a parte propalavam os nossos desertores. Persistiram na marcha para Nioac, pelo Canindé. Ali os alcançaram os paraguaios e os dispersaram, à primeira descarga; depois, saqueadas as carretas, empenharam-se em lhes prender os retardatários donos, atrapalhados como muitos deles estavam pelos objetos mais preciosos de suas cargas, que se não haviam disposto a abandonar. Inexoravelmente perseguidos fácil lhes fora, no entanto, graças a um pouco de firmeza, colocar-se sob a nossa salvaguarda.
Ao chegarmos ao Canindé nada mais ali havia do que destroços de toda a espécie, juncando os dois lados da estrada alguns montes nauseosos de farinha e arroz, amalgamados pelas bátegas de chuva, no meio das poças d'água do solo.
Ninguém jamais imaginara que este terrível amontoado de gêneros, quase irreconhecíveis, pudesse ser a causa de séria colisão, quase de um motim. Tal, porém, o império do organismo debilitado, tais os reclamos dos estômagos desde muito privados de alimento, que os soldados nele procuravam repasto com a avidez das feras que devoram uma presa. Todos para ali quiseram precipitar-se; romperam-se as fileiras, num tumulto inexprimível, no meio de um misto ensurdecedor de queixas, ameaças, vociferações e risadas idiotas, à vista daquele pasto imundo onde cada qual pretendia saciar-se. Quiseram a principio os oficiais interpor a sua autoridade, vendo-se, porém, desrespeitados. Então um deles, o tenente Benfica, injuriado por estes alucinados, atracou-se com um deles, derrubou-o e o dominou com o revólver.
A surpresa causada por este ato de energia começou por conter a multidão. Passado este primeiro momento apaziguara-se geralmente, quando súbito irrompeu o grito: o inimigo! Quer houvesse este sido realmente divisado, quer se tratasse de expediente empregado, graças a feliz inspiração, para que surgisse uma diversão, ficou o ascoroso repasto esquecido.
Não teve esta desordem conseqüências. Fingiu o comandante ignorá-la como provindo do excesso de nossas misérias e ativando, para um pouco mais longe, esta marcha, para a qual já se não tornavam suficientes as nossas forças, ordenou logo que fizéssemos alto e tratássemos de acampar.
Foram as disposições tomadas pelo novo ajudante do Quartel-Mestre, tenente
Catão Roxo, nomeado substituto do tenente-coronel Juvêncio. Passara o capitão Lago a exercer o cargo de assistente do ajudante general, o tenente Escragnolle Taunay o de secretário-geral adido ao comando. Ficara o tenente Barbosa o único representante da comissão de engenheiros recém-dissolvida.
Duas léguas, apenas, nos separavam de Nioac e o comandante, para avisar a nossa chegada, fez disparar, ao mesmo tempo, as nossas quatro peças, acompanhadas de um fogo rolante de todos os batalhões.
Nesta ocasião percebeu nossa gente a irregularidade do tiro pelo fato de que muito haviam as últimas chuvas deteriorado o armamento. Assim, pôs-se logo, e por si, a repará-lo e experimentá-lo várias vezes, a apostar quem atiraria melhor e mais depressa: luta improvisada que desvaneceu qualquer vestígio de torpor, chegando, aos últimos clarões do dia, a tomar festivo aspecto. A esperança de melhores dias está sempre pronta a renascerão no coração dos homens.
Nova fase de existência, realmente, como despontara; despertara a vida e o nosso horrível passado da véspera a fome, a morte, sob todos os aspectos já não nos apareciam mais senão como as alucinações dum pesadelo.
Não é que os pensamentos tristes não nos assaltassem mais, após as realidades que presenciáramos. Contássemos quantos agora éramos! quantos faltavam! Soavam os clarins e folgávamos em ouvi-los; mas que era feito das músicas de nossos batalhões? Companheiras das primeiras provações da expedição nos pantanais de Miranda, ainda luzidas, ao invadirmos o solo paraguaio, não demorara que as dizimasse o fogo inimigo. Logo depois, à medida que as nossas fileiras rareavam, fora necessário dentre elas recrutar soldados. Viera a cólera acabar a obra destruidora, prostrando quatorze músicos dos que haviam pertencido ao batalhão de voluntários de Minas.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.