Por Franklin Távora (1876)
— Oh! Luisinha, como é poderosa a oração ! — disse ele. — Minha mãe, que tantas vezes pôs as suas contas nas minhas mãos, bem sabia que a oração tem mais força do que os homens e vence todas as armas ! É por isso que me ensinava a rezar, a mim que só aprendi a tirar a fazenda e a vida dos meus semelhantes.
Datou desse feliz momento o arrependimento do Cabeleira.
Depois de oferecidas estas orações, lavantaram-se os fugitivos, e foram depor cada um seu beijo aos pés da cruz do ermo.
No bandido já não havia o assassino, havia um espírito contrito, um coração cheio do temor de Deus. Uma mulher fraca, tendo ao seu serviço unicamente a benevolência natural, a perseverança, as lágrimas e um passado quase desvanecido, havia operado uma conversão com a qual poderia legitimamente orgulhar-se um verdadeiro apóstolo do cristianismo.
Com sua luz suave enchia o deserto o astro das recordações e da saudade. O céu estava azul e estrelado. As brisas da noite começavam a mover as folhas do bosque, onde os silvos das cobras, os pios das aves erradias, os uivos dos animais carniceiros formavam lúgubre e medonha orquestra.
Luisinha caiu em uma espécie de sonolência e pouco depois sentiu perturbação mental, e veio-lhe delírio, durante o qual deixou escapar palavras desconexas. A febre que a devorava tinha aumentado com a excessiva fadiga, e com a intensidade das impressões do dia. Cabeleira estendeu por cima dela a sua véstia de couro, e, profundamente comovido, foi sentar-se ao pé da fogueira para não a deixar extinguir-se, e para impedir que se aproximassem as onças que não cessavam de ulular em derredor deles, ameaçando devorá-los. A vida no deserto está exposta a perigos, que mal compreende o que não nasceu no meio deles; só os compensa a liberdade que se depara em qualquer dos gozos que aí se logram.
Pela madrugada adormeceu ao peso da fadiga e ao silêncio que foram fazendo em torno de si as feras. Quando acordou era quase dia. Os passarinhos cantavam com o entusiasmo que desperta em todos os corações o raiar de um dia de verão no seio da natureza.
Seu primeiro cuidado foi saudar aquela a quem devia a ressurreição de sua alma, outrora em trevas aflitivas, agora inundada do suave clarão da piedade cristã.
— Luisinha, acorda — disse ele. — A manhã está fresca. Os passarinhos cantam. A viração tem os cheiros do deserto.
Aproximou-se de Luísa tomou-a nos braços, conchegou-a ao seio, e depôslhe nos lábios um beijo de amor. Os lábios da gentil menina estavam frios, seu corpo gelado. Luísa não pertencia mais a esta vida.
Reconhecendo a cruel realidade, o bandido deu um grito de dor que atroou a imensa solidão como urro de touro selvagem.
— Morta ! Morta ! Luisinha !
O cadáver da moça escapou-lhe dos braços, mas logo o bandido caiu de joelhos aos pés desse corpo inanimado, com o qual tinham falecido todas as suas esperanças de felicidade.
— Luisinha, responde me — disse ele. — De que morreste, meu amor ?
Levantou-se, deu alguns passos a esmo, e tornou ao leito de ramos que tinha servido de leito de morte à virgem dos seus pensamentos.
Pegou-lhe das mãos, que beijou uma, duas, inúmeras vezes, examinou-as, examinou o rosto da infeliz, e só encontrou aí os vestígios do transito final. Tudo estava acabado para ela. Foi esta a verdade cruel que ele viu traspassado de uma pena que se não descreve, e que só ele sentiu nesta vida.
Sentou-se no chão, e suspendeu o cadáver para o atravessar sobre os joelhos. Um galho da árvore, que com sua folhagem havia obrigado a moça durante a noite, afastou-lhe o lencinho branco que lhe envolvia o pescoço, e indiscretamente descobriu aos olhos do consternado amante seus seios virgens.
Ao vê-los, soltou este nova exclamação de dor. A chama que Luísa para salvar Florinda do incêndio, transpusera a noite anterior, havia deixado uma só chaga no lugar onde a natureza tinha-a dotado com um cofre de graças e perfeições peregrinas.
— Queimada ! Oh ! Luisinha, que sofrimento não foi o teu ! Que dores não suportaste em silêncio, desgraçada criança ! E como fico eu sem ti, meu amor ? Ai de mim, Luisinha ! Ai de mim !
O ânimo varonil, que sempre se mostrara inteiro e imoto, agora agitado por comoções tão violentas, dobrou-se enfim e deu larga prova de fragilidade humana. Dos olhos do bandido irrompeu uma torrente de lágrimas. Soluços, como animal bravio, escaparam de seu peito e ecoaram pela imensidade ainda em grande parte adormecida. Havia quinze anos que esses olhos não choravam diante dos mais tristes e lastimosos espetáculos.
— Que noivado o meu ! É o noivado do assassino ! Oh ! meu Deus !
De repente do lado do rio soou um clarim.
A dor sucedeu o susto, e depois o terror no animo do desgraçado mancebo. Só, sem armas, arrependido de toda sua vida de crimes, que restava ao Cabeleira naquele doloroso transe ?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.