Por Bernardo Guimarães (1869)
Começava então a derramar-se por toda a capitania de Goiás a grande fama das maravilhosas curas operadas pela intercessão da Virgem Nossa Senhora da Abadia, que era adorada em sua capelinha, erigida havia quatro ou cinco anos no lugar denominado — Muquém — à custa das esmolas e contribuições do povo, por um santo ermitão, o qual se dizia ter achado nesse lugar em uma lapa à margem do regato, que teve o nome de Córrego das Lágrimas, uma grande e perfeita imagem da mesma Senhora. Corriam na boca do vulgo a respeito desse ermitão muitas histórias e tradições diversas; mas ninguém sabia ao certo quem ele era, nem donde viera. Vivia sozinho em completo retiro subsistindo de esmolas, de frutos e legumes silvestres; trajava um hábito de algodão grosso tinto de negro, apertado por um cinto de sola, do qual pendia um grosso rosário de camândulas. Passava o tempo em contínuas penitências, orações e exercícios piedosos, e ocupado em zelar a pequena ermida, que com o auxílio dos fiéis tinha erigido à sua celestial padroeira. Demais, sua vida era simples, e despida do afetado espírito de austeridade desses que se querem inculcar como santos aos olhos do mundo e como tais serem venerados em vida; sua humildade era sincera, e seus atos de penitência e contrição eram filhos de uma verdadeira abnegação das coisas do mundo.
A imensa reputação da virtude desse santo homem, as prodigiosas curas que tinham sido operadas pela intercessão da milagrosa Santa, deram em breve tempo extraordinária voga às romarias ou peregrinações ao Muquém. A quinze de Agosto, dia em que se celebra a festa da Santa, uma imensa multidão, que acudia de todos os ângulos da capitania de Goiás e mesmo das capitanias vizinhas, vinha reunir-se em torno da capelinha do Muquém, e depor aos pés da Virgem, em cumprimento de promessas, piedosas oferendas e valiosos donativos. Nessa quadra as mal trilhadas e solitárias sendas, que dos diversos pontos da província conduzem à isolada ermida, viam-se apinhadas de viandantes de todas as classes, sexos e idades, que iam em devota romaria cumprir suas promessas levando preciosos presentes em dinheiro, escravos, gado, animais, objetos de ouro e prata, cera, paramentos, alfaias e mil outras coisas, com que ornavam e enriqueciam o santuário da miraculosa Virgem. Nessas estradas encontravam-se então a cada passo tropas e carros atulhados de víveres e efeitos de toda a espécie, numerosas cavalgatas, que lá iam em ruidosa e alegre comitiva, caravanas de homens e mulheres a pé conduzindo crianças e bagagens, ou acompanhando vagarosamente um carro puxado a bois, que com seu monótono chiar lá ia em lentas jornadas atravessando os chapadões.
Quem ignorasse o motivo desse movimento, julgaria achar-se nas vizinhanças de uma grande cidade. Também em Vila Boa não havia quem não quisesse ir em romaria ao Muquém beijar o hábito do virtuoso ermitão, adorar a milagrosa imagem, e implorar-lhe alívio a seus males.
— Nunca mais iremos à romaria do Muquém cumprir nossas promessas, Mateus? perguntava Josefa, a velha companheira de mestre Mateus, a qual, como todas as velhas beatas, tinha o mais vivo e ardente desejo de ir àquela romaria, e julgava que sua alma não se salvaria se morresse sem ter cumprido sua promessa. Há dois anos, continuou ela, que fizemos promessa de lá ir, e levar Maria, e até agora nada! Olha que Agosto está à porta, e nós não somos crianças para deixarmos os anos passarem assim. Já vai para vinte anos que a pobre Maria está naquele estado, muda e desmemoriada. Se Nossa Senhora da Abadia não lhe der alívio e não lhe restituir o juízo e a fala, não sei quem lhe poderá valer.
— Tem paciência, minha velha, responde flegmaticamente mestre Mateus; tu bem sabes que meus incômodos e negócios me têm atrapalhado essa viagem. Mas vai-te aviando, que este ano, custe o que custar, havemos ir ao Muquém com o favor de Deus. Também eu preciso bem apegar-me com a milagrosa Virgem a ver se me dá alívio a esta maldita gota, que me atormenta, e que já nem me deixa ir trabalhar à forja.
— E eu também, que há mais de seis anos não sei o que é lograr boa saúde.
Mestre Mateus, que apesar dos seus incômodos, que ele exagerava, e de contar já seus oitenta anos, era ainda vigoroso e ágil, como um velho ciclope, começou a tratar com atividade dos preparativos para a projetada romaria. O Muquém ficava a cerca de oitenta léguas ao norte de Vila Boa de Goiás, por caminhos desertos, baldos de recursos e por vezes infestados pelos Bugres das margens do Tocantins. A viagem era longa e não sem dificuldades e perigos. Mas nenhuma dessas considerações detinha os romeiros, que em seu devoto ardor expunham-se de bom grado a todas as fadigas, privações e perigos. Mestre Mateus aprontou um grande carro-de-bois, no qual tratou de encerrar grande quantidade de víveres, roupas, utensílios e outros objetos necessários para uma longa peregrinação de mais de dois meses através de sertões desertos e inteiramente baldos de recursos.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.