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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

não será necessário que me digas nada... mas quero ver ainda mais, e depois...

– E depois o quê, Jupira?

– Estás vendo esta faca? disse a cabocla tirando do seio e desembainhando a lâmina luzente e afiada de sua pequena faca.

– Jupira!...

– Não estás vendo? – continuou Jupira com um tom de glacial indiferença, que fez estremecer o rapaz. – Acho que a folha desta faca é bastante comprida para chegar-me ao coração, e ao teu também, Carlito.

Carlito, que estava sentado ao pé dela, pôs-se em pé de um salto.

– O que é isso? exclamou aterrado: o que dizes, menina?...

– Não te assustes, meu Carlito, – disse a cabocla com um sorriso de inexplicável expressão e tornando a meter no seio a faca. – Cuidas já que quero matar-te?... não sou tão má como isso... Tu é que queres matar-me com tuas ingratidões.

– Mas quantas vezes queres que eu jure que nunca, nunca te deixarei?...

– Tens razão... perdoa-me... eu sou uma doida. Vem Carlito; vem sentar-te outra vez ao pé de mim...

O beijo da reconciliação soou entre suspiros. Os dois amantes enlaçaram nos braços um do outro, e alguns momentos depois se retiraram, por lados diversos, Jupira melancólica e abatida, Carlito aterrado e apreensivo.

Jupira ainda não conhecia toda a extensão do seu infortúnio, não sabia a que ponto chegava a ingratidão e aleivosia de seu volúvel e leviano amante. Carlito tinha travado um novo conhecimento, que o ia fazendo esquecer sua encantadora prima. Uma formosa menina loura e branca como uma açucena, filha de uma pobre mulher que vivia de lavar a roupa do seminário, tinha-lhe cativado... não o coração porque esse era leve e livre como o vento; tinha-lhe cativado os olhos. Rosália era uma criança de treze para catorze anos, uma flor quase em botão. Carlito tornou-se seu assíduo adorador, e com tal habilidade soube se haver, que em breve tempo tinha conquistado o coração da menina. Tenho sorvido a fartar o aroma ativo e inebriante da magnólia das florestas, queria aspirar também o delicado perfume do lírio dos jardins. Era um formidável conquistador, que se estava preparando na pessoa do pequeno sertanejo, um d. Juan dos sertões.

Não pôde ficar oculta por muito tempo a Jupira a nova afeição e a deslealdade de seu primo. A pequena povoação de Campo Belo, se povoação se podia chamar, composta de alguns agregados, que viviam na dependência do seminário, constava apenas de um mui limitado número de casinhas dispersas aqui e acolá pelo suave e descampado lançante de uma colina, ao pé da qual corria um pequeno córrego. Da casa de Jupira, portanto, avistava-se perfeitamente a de Rosália, onde ela viu por diversas vezes entrar e sair o seu amante. O zelo entrou-lhe no coração como uma lava incandescente e devastadora. O abatimento e tristeza, em que vivia, converteram-se em raiva e desesperação. Naquela mulher, que amava tanto e com todas as forças de uma alma ardente e impetuosa, o ciúme devia produzir terríveis explosões.

Mais por medo que lhe ia tomando e por dissimular sua inconstância, do que por satisfazer a um desejo do coração, Carlito não deixava de procurar sua prima. Carlito ficou assustado à vista dos lampejos torvos e sinistros, que viu luzirem nos olhos de Jupira num dia em que a foi visitar em sua casa; pareciam relâmpagos, que se desprendiam do seio de uma nuvem negra e tempestuosa. A cada momento cuidava ver luzir-lhe na mão o terrível punhal que lhe havia mostrado à beira do Rio Verde.

– Que tens, Carlito, que estás assim com os olhos espantados? – disse a cabocla com um sorriso de mofa e de desdém. – Ainda estás com medo de mim?...

– Eu com medo de ti ?!... mas parece que estás zangada comigo...

– Se estou!... Carlito!... não zombes comigo assim, que me matas...

ou eu te mato...

– Mas o que isso então?... que mal te fiz eu, Jupira?...

– Olhem o inocente!... o que é que vais fazer tantas vezes em casa da Genoveva?...

– Ah!... é só isso?... costumo ir lá sempre, isso não é de agora.

– Mentira!... nunca te vi lá ir.

– Eu mentir?!... para quê, Jupira!... disse Carlito em tom de desdém.

– Para quê?!... então, se gostasse de Rosália, não me enganavas?...

– Ora deixa-te dessas idéias, menina; – disse Carlito em tom de gracejo querendo meter à bulha o negócio para disfarçar a perturbação e embaraço, em que se achava. A Rosália é uma boa menina, com quem estou acostumado a brincar desde criança, e a mãe dela me quer muito bem. Vou lá patuscar com elas e tomar café com biscoitos, que a tia Genoveva faz muito bem-feitos.

– Café com biscoitos! e por que não o vens tomar aqui, como costumavas?...

– Ora! – replicou o rapaz esforçando-se ainda por gracejar. Os biscoitos da Rosália... digo da tia Genoveva, são tão doces...

– Carlito! – bradou a rapariga levantando-se de um salto do tamborete, em que estava sentada, e com os olhos faiscantes. – Carlito, tu zombas de mim?

O rapaz recuou aterrado; mas depois sentiu que era vergonha ter medo de uma mulher.

– Que tens hoje que estás tão bravinha, caboclinha do meu coração?... disse ele procurando ainda zombetear.

(continua...)

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