Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Outros objetos constituíam o indispensável do Sr. Benício e sem os quais não saía de casa: eram os jornais do dia, uma provisão de lenços brancos e de rapé, um papel de palitos, caixas de fósforos, e um estojo de viagem no qual havia tesoura, canivete, alfinetes, preparos de costura, e até dois frasquinhos, um com arnica e outro com éter. Perdemos de vista nestes últimos tempos ao digno St. Benício; mas apostamos que ele introduziu no seu necessário mais um frasquinho para a “hesperidina”. 

Assim armado de ponto em branco, lançava-se o nosso homem na labutação do costume; por onde ele passava, não perdia ocasião de obsequiar: era médico, modista, agente, recadista, alfaiate, folhinha, gazeta, almanaque, guardaroupa, estojo, paliteiro e tudo enfim que fosse preciso, contanto que desse largas a seu gênio serviçal. 

Entre duas e três horas, Benício era infalível na rua do Ouvidor. Se a família de seu íntimo amigo 

O general F. queria avisar a este do lugar onde o estava esperando; se o seu ilustre amigo o conde G. ao chegar ao largo de São Francisco de Paula não encontrava o carro e precisava que o fossem chamar;  se a sua respeitabilíssima amiga a baronesa H., que andava às voltas com encomendas, procurava alguma casa de pechincha; se finalmente o seu bom amigo o camarista I., ou o almirante K., ou o marquês L. queriam perder-se em certas ruas abstrusas e enganar-se de porta: aí estava rente o incomparável Benício; era ele o homem da situação. 

Em um ápice dava ele com o general em certa barraca de campanha, que este gostava de contemplar, lá para as bandas do Mercado, efeitos da nostalgia guerreira; farejava o lacaio do conde na barraca do largo da Sé onde o brejeiro jogava o pacau por conta do senhor; conduzia a matrona a uma casa misteriosa, onde ia todo o mundo grande, mas ninguém confessava; e por último tais voltas dava com o camarista, o almirante e o marquês, que eles perdiam-se por detrás de umas rótulas... 

O Benício tinha não só um, como diversos abecedários de amigos; mas entre esses escolhia uma dúzia, que eram os do peito. Havia neste último número suas disponibilidades necessárias, como outrora no conselho de estado. Assim era de rigor que aí estivesse o presidente do conselho certo e o provável, para o que ninguém tinha melhor faro do que o nosso amanuense; e isso provinha da sua privança com um particular de São Cristóvão, o filho, senão o mesmo, que tivera certa contestação com o Dr. França, o velho. Destas anedotas, já não se fazem hoje em dia. 

Para estes amigos do peito era o Sr. Benício o Petrus in cunctis, o pau para toda a obra. Por isso lhe pagava o estado um conto e seiscentos como amanuense. 

Tal era pelo menos  a convicção em que estava o nosso homem. 

Incorporando-se ao passeio, não tivera o Sr. Benício outro fim senão dar pasto ao gênio serviçal. A princípio a fogosa mula baia o impedira de aproveitar as ocasiões; mas para a volta tivera o cuidado de passar os arreios para o machinho cargueiro. 

 

XIX 

 

Com a arrancada do machinho, bem a contragosto do Benício, ficaram outra vez sós os dois moços.  Mas a poucos passos de distância cruza a volta que desce para o vale. 

- Aqui, peço licença para separar-me, disse Ricardo. 

- Não passa o dia conosco? 

- Há de me desculpar; tenho necessidade de estar em casa.

- Já vejo que não esqueceu! 

- O quê? 

- A impertinência de há pouco. 

- Oh! minha senhora! 

- Tem medo de outra cena igual. 

- Que idéia! 

- E eu me não posso queixar. 

- É uma injustiça que me faz, D. Guida. 

- Há um meio de convencer-me. 

- Qual? 

- Passe o dia conosco. 

Ricardo hesitou um instante. 

- Passarei, disse naturalmente. 

Refletiu que se persistisse em retirar-se naquele momento, deixaria no espírito da moça a convicção de o haver ofendido, e o desgosto que sempre causa a suspeita de ter decaído da estima de um homem sisudo. 

Que necessidade tinha de humilhar essa moça, de quem afora um instante de contrariedade naquela manhã, só recebera amabilidades e delicadezas? Eram mais algumas horas de constrangimento, que lhe custava essa condescendência. 

- Agradeço-lhe de coração, respondera Guida. Em outro dia sua companhia me seria agradável, como sempre. 

Ricardo inclinou-se: 

- Hoje se não jantasse conosco, eu ficaria triste, acrescentou a moça com um cândido sorriso.

- Então fique alegre, replicou o moço retribuindo o gracejo. 

- E estou! 

Uma terceira voz misturou-se ao diálogo: 

- Então a excelentíssima não quer aceitar? 

Era, não carecíamos dizer, o incansável Sr. Benício, que tendo afinal conseguido sofrear o chouto do machinho, voltara atrás; e aproximando-se sem que o percebessem, ali estava de espinhaço arqueado e braço estendido, a empunhar o guarda-sol, em posição de archeiro. 

Desta vez Guida não respondeu-lhe e seguiu adiante. Voltou-se então o Benício para Ricardo e apresentou-lhe a veneranda barraca: 

- Sr. Doutor, V. S. é servido? 

- Não; obrigado. 

- Olhe que o sol está pelando. 

- Nem por isso! Ao contrário, acho bem fresca a manhã! Fizemos um passeio magnífico. Não gosta da “Vista dos chins”?... 

- Faça favor! Insistiu o obsequioso Sr. Benício com o guarda-sol. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4647484950...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →