Por Visconde de Taunay (1872)
Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o sinal-da-cruz na direção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depô-la junto à porta da casa, porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara Inocência entretanto, reunindo as forças pôde entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado a esse respeito, voltou Cirino ao laranjal e, como da primeira vez, pôs-se a percorrê-lo em todos os sentidos, indagando, à nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem dele parecia fazer joguete.
No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia.
—Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.
E, como uma visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das árvores.
Ali esteve Cirino com os cabelos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os lábios secos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.
Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.
Era Pereira; com a mão encostada a boca, interpelava a um dos seus escravos.
—Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma bala aos ouvidos de Cirino, indo cravar-se numa árvore próxima.
Por outra, não esperou ele. Com o favor da escuridão que ainda reinava, deslizou rápido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os camaradas.
Mal chegara a sala, apareceu-lhe Pereira à porta.
—Que foi isso? perguntou Cirino compondo a fisionomia.
—Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo. Desconfio que a alma do Coletor andou hoje me rondando a casa... Não seja presságio de mal... A Senhora Sant'Ana nos proteja.
—Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cirino; acordei com um tiro...
—Não há de poder enfiar outra soneca daqui a um nadinha, está o sol batendo no terreiro.
Com efeito, depressa caminhava o alvorecer, e debaixo daquelas vivas impressões acordaram aqueles que haviam conciliado o sono, na morada de Pereira.
CAPÍTULO XXIV
A VILA DE SANT'ANA
Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.
(Lavergne).
Nesse mesmo dia, montou Cirino a cavalo e despediu-se de Pereira por uma semana ou pouco mais, dando por motivo de tão inesperada viagem, não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão também procurar, quer na vila, quer mesmo nos campos da província de Minas Gerais, uns remédios e símplices que lhe iam faltando.
—Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.
Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradável a estrada, que essas três léguas lhe foram muito fáceis de vencer.
Ali, porém, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de quatro léguas, até a Vila de Sant'Ana tornam penosa a viagem, sobretudo quando são percorridos sob os ardentes raios do sol do meio-dia.
Exaltam-se e irritam-se os incômodos do espíritos, no momento em que o físico começa a sofrer.
Quando Cirino passou por aquelas campinas desabrigadas, abrasado de calor, desanimou completamente do êxito da empresa a que se atirara. Tanta esperança o alvoroçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do cavaleiro.
—Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquela conversa? Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada do seu coração.
—Maldita a hora em que vi aquela mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:
—Perdão, Inocência! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir... deixar-te... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Ana do Paranaíba.
De longe é sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de áureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo límpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé à direita e à esquerda, chega-se à rua principal, que tem por mais grandioso edifício espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigá-la em sua totalidade dos ardores do sol.
É aí que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.