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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Carregou-se o resto para as necessidades futuras. Atravessando o posto abandonado, tomaram os soldados o que ainda ali havia de víveres e até couros, que a penúria de dias precedentes lhes fazia considerar como último e precioso recurso contra a inanição.

Recomeçando a caminhar acompanhou-nos a chuva ainda, sem que a nossa marcha por isto se atrasasse, embora, de tempos a tempos, nos víssemos forçados a estacar à espera da artilharia. Nos lugares piores retardava-se e, com ela, o batalhão da retaguarda, encarregado de a escoltar. Daí, freqüentemente, resultava, para a nossa marcha, perturbação tanto maior quando as ordens eram transmitidas ao longo da coluna, por meio de agudos gritos, sujeitos a interpretações diversas. Avançamos, apesar de tudo, até às quatro da madrugada Dado, então, o sinal de alto, estrompados, e quase sonâmbulos deixamo-nos cair no chão enrolados nos ponchos encharcados como o capim e que nos servia de colchão.

Duas horas mais tarde, às seis, estávamos de pé e graças ao que havíamos ingerido, sentindo-nos mais fortes prosseguimos, sob um céu sereno e uma atmosfera tépida, a nossa intérmina caminhada para Nioac, por toda a parte percebendo, sobre a estrada, onde os paraguaios nos precediam, o rasto de seus cavalos.

Desde a última parada atravessávamos cerrado matagal, onde os soldados, já não mais temendo o ataque da cavalaria, marchavam com segurança, mais afastados uns dos outros. Sabíamos que o campo raso só o veríamos depois de Canindé. Foi às duas da tarde que avistamos a mata desse nome, que é o do rio que a corta. A ele chegamos às três, tendo vencido sete léguas, motivo de espanto geral, dada a fraqueza em que nos achávamos.

Ao atravessarmos o rio deparou-se-nos o cadáver de um capataz de carretas, chamado Apolinário, a quem os paraguaios acabavam de matar. Pertencia ao comboio daqueles mascates parados na Machorra, à espera de notícias e que, com os boatos dos combates de 8 e 9 de maio, segundo os quais passáramos como perdidos, cuidaram de retroceder. Vinte dias tinham gasto para atingir o Canindé, onde encontraram os boiadeiros que ali nos deviam entregar uma boiada, mas, antes de nossa chegada, haviam uns e outros caído às mãos do inimigo.

__________

(1) Apolinário Peralta de Sampaio chamava-se o carreteiro a que se o autor.

CAPÍTULO XX

Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas léguas. O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco.

À vista do cadáver estendido à margem do Canindé, não tivemos mais dúvida a respeito da perda do comboio todo, da morte dos mascates e o saque das provisões que traziam, além dos objetos que se propunham mercar por conta própria. O que houvera sido necessário fazer, fora chegar dois dias mais cedo ao Canindé. Teríamos, então, encontrado e protegido estes viajantes desarmados, que regulavam sua marcha pela nossa e de quem dependera sempre grande parte do nosso abastecimento; enfim, e sobretudo, preservaríamos de triste fado a vila de Nioac que, evidentemente, ia ser completamente arrasada. Tudo isto compensaria, bastante, um pouco de diligência, se para tanto fôssemos capazes.

A observação maligna que daí decorreu, formulada a modo de acusação, como sói sempre acontecer na adversidade, provocou entre os oficiais, naquele mesmo local, discussão bastante azeda. Não foi, porém, difícil daí deduzir-se uma justificação completa dos movimentos da coluna, desde que se soubera da chegada à Machorra do desastrado comboio.

Para apenas falar dos últimos dias: acaso fora exeqüível mais rápida marcha? Não estava de sobra provada a fadiga excessiva que ela nos valera? Não devêramos à obrigação de salvar os canhões, o atraso de dois dias, decorridos entre a morte do coronel Camisão e a partida da estância do Jardim? E se quiséssemos ir além, até o momento em que preferíramos o atalho proposto por Lopes, convinha não esquecer que, para tal escala, entre diversas vantagens, preponderara a consideração do interesse dos mercadores que era deles desviar o inimigo, atraindo-o sobre nós. Tomássemos a estrada batida para ir ao seu encontro, e protegê-los, como parecia plausível, era mais que provável houvéssemos todos sucumbido, nós e eles, até o último. Apanhando-os conosco não os teria a cólera poupado menos do que a nós no itinerário então escolhido, fosse porque já lhes transportássemos o germe ou os paraguaios nos houvessem contaminado. Quanto aos contínuos ataques com que nos haviam atormentado, muito maior número de ensejos lhes teríamos proporcionado se precisássemos atravessar tantos rios: o Feio, o Santo Antônio, o Desbarrancado. Aí o comboio mais nos estorvaria, pois não estaríamos em condições de o defender.

(continua...)

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