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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Basta-me o véu, respondeu a moça desdobrando o filó verde do chapéu.

- Faça favor, D. Guida? 

- Não posso com o peso da sua barraca, Sr. Benício, disse Guida com um remoque.

- Por isso não, eu carrego, respondeu imperturbável o homem.

- Dispenso! acudiu a moça. 

- Com licença! tornou o Benício metendo os calcanhares no machinho a fim de guardar a moça do sol.

- Ora deixe-me! 

- A excelentíssima pode ficar doente. 

- Não tenha susto! 

- Então neste tempo em que há tanta febre por aí!... 

Guida começou a solfejar o buona sera do Barbeiro de Sevilha. 

- A Srª. D. Paulina não há de gostar, quando souber o sol que a excelentíssima apanhou. A senhora já está tão afogueada! 

- Decerto! replicou a moça. 

- É o calor!... 

- É o seu guarda-sol que me está irritando os nervos. 

- A excelentíssima há de ver, se amanhã não está com sardas na pele. E será uma pena! 

Colhendo as rédeas “Edgard”, com gesto de impaciência, fez Guida uma evolução rápida, e fustigando a valer a anca do machinho em que montava o Sr. Benício, despachou-o a trote largo pela estrada fora. 

Sacudido pelo chouto cadente, o homem agarrado ao arção da sela voltou-se ainda para reiterar o oferecimento, que era escandido em uma espécie de soluço causado pelo vascolejo. 

- A excel (uf)... lentíssima(uf)... faz mal (uf)... Aposto que (uf)... chegan’a (uf)... cas’a’sta com... (uf) dor de cab’ça... E mais diria, se não desaparecesse na sinuosidade da estrada. 

Era o Sr. Benício a encarnação de um tipo muito usual de nossa sociedade, o do “homem serviçal”, uma das encarnações do aresko de Teofrasto. 

A maior satisfação desse homem era obsequiar; não pensava em outra coisa, não tinha ocupação. Tanta arte e perícia punha nesse mister, que o elevara à importância de uma profissão, embora ninguém a tenha exercido com o mesmo zelo e amor. 

É certo que tinha um empreguito no tesouro, se não era nalguma secretaria de estado. Mas esse não passava de um pretexto para receber os magros vencimentos, e de um meio de exercer com maior proveito a sua vocação irresistível de obsequiar. 

Aparecia às vezes na repartição para tratar do negocinho do seu amigo o conselheiro A. ou de seu amigo barão B.; e aproveitava o ensejo para assinar o ponto e pôr-se em dia com os atrasados. Essa regalia, o chefe não a permitiria a qualquer; e se o fizesse, havia de coçar-se com a mofina que sem falta os empregados teriam o cuidado de atiçar-lhe nos jornais. 

Mas a um homem tão serviçal como o Sr. Benício, quem podia recusar essas liberdades; e quem teria ânimo de censurá-las? 

Achava-se o amanuense em toda a parte, mas sobretudo onde havia pessoas a obsequiar; só em dois lugares era ele incerto, e até mesmo vasqueiro; na repartição e na casa de morada. Afora estas exceções, ficava-se tentado a crer que o homem tinha o dom da ubiqüidade. 

Trazia habitualmente uma grande sobrecasaca de pano azul-ferrete, que era menos uma peça de vestuário, do que um agregado de bolsos. Tinha quatro: dois nas abas e dois no peito, mas de tais dimensões que se tocavam, acolchoando todo o forro, com o chumaço de papéis, lenços, carteiras, fósforos e mil outros objetos de que andava sempre munido, para ter o sumo de prazer de obsequiar. 

Usava chapéu de copa baixa e abas largas. Esse traste característico tinha pregado por dentro uma folhinha-cartão, um horário da estrada de ferro, o mapa da partida dos correios, e os sinais de incêndio; tudo isto por baixo do forro volante de tafetá. 

Ninguém o via, de dia ou à noite, a pé ou de carro, sem o enorme chapéu de sol verde-gaio a que dera Guida o próprio nome de barraca. A esse traste precioso, devia ele o inefável prazer de preservar os aldores de canícula, ou da chuva repentina, o seu velho amigo senador C. quando atravessava o campo, e o outro seu velho amigo o desembargador D. ao sair da relação. 

Se ao sair ameaçava chuva, ou os calos lha tinham anunciado à noite, munia-se por precaução de um par de galochas de borracha, que sumia na profundeza de um dos quatro bolsos insondáveis. Achava-se sempre modos de aparecer a propósito para resguardar da lama os pés de alguns personagens desprecatados. 

A essa previsão deveu ele a preciosa amizade do monsenhor E. Vendo-o um dia entrar no bonde com sapato fino e meia carmesim, acompanhou-o até Botafogo, e aí teve a satisfação de encaixar-lhe o par de galochas, com que a excelência patinhou no mingau do macadame, sem mácula das insígnias prelatícias. 

(continua...)

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