Por Visconde de Taunay (1872)
—E mecê havia de me estimar toda a vida?
—Sempre... Diga, sim... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos. . . diga! . . — E meu pai, Cirino? Que havera de ser? .. Atirava-me a maldição... eu ficava perdida... uma mulher de má vida... sem a bênção de meu pai... Não... mecê está me tentando... Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a existência... mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito peco, fazendo o que faço.. Mecê é moço da cidade; não lhe custa enganar uma criatura como eu... Até...
—Pois bem, interrompeu Cirino, você não quer?... não falemos mais nisso .. Não hei de querer, senso aquilo que achar bom... E se eu, por fim, me decidir a falar a seu pai?
—Deus nos livre! retorquiu ela aterrada. Pensei a principio que pudera ser, mas depois vi que era pior... Mecê não conhece o que é palavra de mineiro... ferro quebra, ela não... Manecão? há de ser genro dele...
—Quem sabe, Inocência? Hei de falar tanto... pedir com tanta humildade.
—Ché, que esperança!... de nada serviria...
—Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Por que é que o céu nos quer tanto mal?
E ocultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente. Inocência, por seu lado, encostou a fronte ao ombro do amante, e ambos, unidos, choraram como duas crianças que eram.
Foi ela quem primeiro rompeu o silêncio
—Ah! meu Deus, se o padrinho quisesse!...
— Seu padrinho? perguntou Cirino. Quem é?... quem é ele?
—Um homem que mora para lá das Parnaíbas, já nos terrenos Gerais.
—Onde?... É longe?...
—Meio longe, meio perto. .. Mecê não conhece o Pauda ?
—Conheço... A 1é léguas do Rio Paranaíba...
—Pois é aí que padrinho pára... A esquerda da fazenda do Pauda, numas terras de sesmaria...
—E como se chama ele?
—Antônio Cesário... Papai lhe deve favores de dinheiro e faz tudo quanto ele manda... Se dissesse uma palavra, Manecão? havera de ficar atrapalhado...
—Oh! exclamou Cirino com confiança, estamos salvos então!... Amanhã mesmo, monto a cavalo e toco para lá... Daqui à vila são sete léguas... Até lá, umas dezessete... é um passeio... Chego... conto-lhe tudo... ponho-me de rastos aos seus pés... e...
—Mas, interrompeu Inocência, não lhe fale em mim, ouviu? Não lhe diga que tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo perdido... Invente umas histórias... faça-se de rico... nem de leve deixe assuntar que foi por meu juízo que mecê bateu à porta dele... Hi! com gente desconfiada, é preciso saber negacear ..
—Oh! meu Deus, disse Cirino no auge da alegria, estamos salvos!... Não há dúvida... Vejo agora como há de tudo acontecer... Depois de um dia ou dois de parada na casa, desembucho o negócio. O velho escreve uma carta a seu pai e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão? .. ganha-se tempo... Eu já quisera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater a estrada por ai afora... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou três de pousada... Com pouco mais de uma semana, estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a caipora de uma vez. Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abadia... Ela nos ajudará... e juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...
—Que permessa foi? perguntou Inocência com curiosidade.
—Irmos nós daqui até a vila a pé, botar duas velas bentas no altar de Nossa Senhora.
—Sim, confirmou a moça com fogo, eu juro... Fosse até ao fim do mundo! . . .
—Oh! minha santa do Paraíso, exclamou o moço apertando-a de encontro ao peito, quanto você me ama!!
E assim abraçados, quedaram eles inconscientes, enquanto a aurora vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a sondarem a profundidade das trevas; enquanto os pássaros chilreavam à surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto, enquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes árvores e suspendendo, às das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam já como diamantes.
Ao longe, à beira de algum rio, as aracuãs levantavam a sonora grita, e o macauã atirava aos ares os pios prolongados da áspera garganta.
—É dia, observou Inocência desprendendo-se dos braços de Cirino.
—Já! exclamou este amuado.
—Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa... vou-me embora...
—Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.
—Sim...
—E na semana que vem, estou de volta...
—Pois bem... Leve com mecê esta certeza; a minha vida ou a minha morte depende do padrinho...
—A minha também, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Inocência...
—Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguém me viu...
Nesse momento e, como que para responder à asseveração, de dentro do pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.
Inocência quase caiu por terra.
—Meu Deus! balbuciou ela, que agouro!... Quem sabe se não é gente?
Ao assobio seguiu-se uma espécie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos dois míseros.
Agarrou-se a menina a Cirino.
—É alma do outro mundo, murmurou ela persignando-se.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.