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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Achando o comandante que já havia bastante gente do outro lado do rio, resolveu que, no dia seguinte, se transportassem as nossas quatro peças de artilharia. No meio de todas as nossas calamidades haviam-se elas constituído em motivo de viva inquietação. Abandoná-las como troféus ao inimigo era inadmissível. Já outrora, em conselho de guerra, deliberara o coronel Camisão a seu respeito, daí resultando uma ata autorizando o comandante a fazê-las, em caso de premente necessidade, desaparecer no leito de algum caudal, à maior profundidade possível, de modo que se pudesse sempre, mais tarde, ir buscá-las, acaso por elas se interessasse o sentimento nacional. Conhecíamos os paraguaios, porém; que precauções poderiam ocultar-lhes tal depósito? De sobra sabiam o que tem armas lhes haviam custado para que elas pudessem escapar às pesquisas prováveis que não deixariam de fazer.

Fosse como fosse, ainda não nos havia sido imposto tal sacrifício, era, sobretudo, para salvar os canhões que o major José Tomás Gonçalves tivera a idéia da instalação do cabo, e, tomado de legítimo entusiasmo, assistira ao seu feliz ensaio.

A 31, com a mais viva animação, puseram todos mãos à obra; não houve quem se não prestasse, quer para trazer à ribanceira a primeira peça, quer para multiplicar os nós da amarração em torno dos troncos de árvores da margem e os consolidar, quer ainda para a fixação das polias que deviam facilitar o transporte.

Moveu-se, afinal, a boca de fogo e quando puxada, de modo a escorregar ao longo do cabo, por diversas Juntas de bois colocadas na ribanceira oposta, pareceu seguir regularmente, estrepitosas aclamações ergueram-se, em ambas as margens, acompanhando-a até que saísse d'água No meio da corrente tanto fizera o cabo bojar que lhe receáramos o desaparecimento completo. Menos feliz foi a segunda peça: escapou de uma das alças, arrancou as demais e caiu no fundo do rio. Pouco faltou para que o cabo se não rompesse. Resistindo a tão forte tensão e, de repente, liberto do peso que o sobrecarregava, fustigou a água com enormes jactos de espuma, deixando, contudo, o canhão no fundo d'água. Felizmente, a nenhuma vida comprometeu o incidente que, em ambas as margens, provocou intensa agitação.

Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damásio, ofereceu-se imediatamente para mergulhar no ponto da imersão, e, tendo conseguido reconhecer o fundo, pôde, após duas ou três emersões, para tomar fôlego, passar em torno da peça uma corda de que se provera e serviu para a puxar. Foi a lição aproveitada quanto aos cuidados tomados com a amarração das demais bocas de fogo e apressou o resto da operação, permitindo completar a passagem à tarde daquele dia e na manhã seguinte.

A primeiro de junho, à tarde, achamo-nos todos, afinal, reunidos em torno da casa de Lopes, no seu pomar por nós despojado dos frutos, e logo, sem mais repouso ou alimento, recomeçamos a caminhar. O inimigo, que passara para a margem direita, lançou então os seus atiradores contra a nossa retaguarda. Comandava-o o bizarro Pisa-flores, que, com a costumada galhardia, não tardou em repelir este novo assalto; o único inconveniente daí resultante foi obrigar-nos a uma parada que nos deteve até a vinda da noite, que nesta estação chega cedo. Embora não tivesse havido contramandado algum, e apenas se interrompesse a marcha, não foi sem alguma surpresa que, logo após o toque de recolher costumeiro, ouvimos as cornetas dar o sinal da partida imediata. Tornou-se a impressão tanto mais viva e penosa quanto a escuridão se tornara mais profunda, prenunciando-se próximo temporal e mais violento ainda Cada qual, no entanto, compreendeu a necessidade urgente de transpor, custasse o que custasse, o espaço que nos separava da vila de Nica, quando o menor atraso de nossa parte podia causar-nos o aniquilamento total.

Recomeçamos, pois, a marcha, indo à vanguarda o capitão José Rufino, que conhecia bem o caminho. Por mais sombria e tempestuosa que estivesse a noite não nos ocultava a estrada que diante de nós se abria, larga e plana. Caminhávamos a passo dobrado. Restavam-nos poucos doentes, havendo vários falecido nos dias antecedentes, e entre eles o alferes Muniz. No entanto os soldados que se revezavam em carregar as padiolas começavam a murmurar ameaçando desvencilhar-se da carga

Este princípio de insubordinação que tudo poderia arruinar, não teve, contudo, tempo para progredir. Avisado, caiu o comandante, a todo galope e de espada desembainhada, sobre os rebeldes, encontrando-os a implorar perdão.

Desde este momento reinou o silêncio na coluna, em obediência às ordens dadas. Subitamente, no meio da estrada, surgiu uma patrulha paraguaia, a quem o zunir do vento e o ribombo do trovão haviam encoberto qualquer suspeita de nossa aproximação; e, ainda, sem que os seus cães, a ladrar, ou o gado, a mugir, houvessem dado o alarma. Caminhando à frente da coluna, mandou nosso comandante que estacássemos e deu ordem que nos preparássemos a carregar à baioneta sobre o acampamento inimigo.

Mas já este a toda a pressa se retirava, deixando-nos o passo livre, nem tempo teve de reunir todo o gado que tangia; estremalharam-se alguns bois que apresamos; circunstancia para nós de inestimável valor; era a própria vida. Apesar da urgência que nos impelia a avançar, não foi possível recusar aos soldados o tempo necessário para carrear algumas das reses apanhadas e comer um pouco da carne, às pressas assada.

(continua...)

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