Por Franklin Távora (1879)
— Assim praticando a senhora acaba de escravizar ainda mais o meu coração, já tão escravo dos seus dotes; e o prazer que havia de experimentar aproximando minha mãe da senhora, duplicou-o não só a fineza, mas também a honra de sua visita.
À tardinha, Ângelo e D. Matilde acompanharam Maurícia para a casa de Martins e aí ficaram para o chá. Era um dos primeiros dias de dezembro; no dia seguinte deviam começar as novenas da Conceiçãozinha. Maurícia tinha sido convidada pelos juizes da festa a cantar uns versos compostos pelo benemérito poeta pernambucano Torres Bandeira.
Por motivo de moléstia, Virgínia não tinha acompanhado a mãe ao Recife; mas depressa deveria vir, logo que melhorasse, a fim de tomar parte na solenidade.
Na casa de Martins, iam repetir-se os suaves regozijos de que era todos os anos, por aquele época, natural estância, visto ficar perto da capelinha e ser durante o ano o centro onde se ajuntavam as primeiras famílias das vizinhanças. Havia na sala umas dez ou doze senhoras, entre as quais as nossas conhecidas D. Rosa, D. Sofia, Iaiá, Sinhazinha, D. Teodora e sua filha Teresinha. Não eram muitos os homens. Se levarmos em conta Ângelo e Martins, mostrava-se o irmão de Sinhazinha, por nome Alfredo, que tinha especial motivo de estar ali - andava arrastando asa para a Iaiá; um moço empregado em uma das repartições públicas, Honório Lins, que pela segunda vez viera à casa de Martins; e por último o mestre de piano, o Silvério, muito estimado da melhor sociedade do Recife. O Salustiano, de quem os leitores talvez se lembrem ainda, prometera comparecer, mas faltara, receando acaso as judiarias de alguns estudantes dos quilates do Azevedo, que seis meses antes tantos risos despertara à custa dele.
Tinham se reunido as senhoras para proceder ao ensaio geral dos versos que deviam ser cantados na noite seguinte. Chegando o momento de dar-se começo ao piedoso exercício, as moças encaminharam-se para o piano. Já ali estava Silvério que com mágicos prelúdios abafou o farfalhar das saias ruidosas das cantoras.
Então, Maurícia começou a cantar. Dir-se-ia que na longa ausência sua voz fizera aquisição de novas harmonias até àquele momento desconhecidas dos ecos da estrada. Essas harmonias tinham sentimento e grandeza. O motivo era religioso, mas os tons de certas profanidades afetiva, a frescura e a vivacidade que não parecem muito compatíveis com os graves acentos e a morna languidez das músicas sacras, estavam traindo de parte dela certo desejo, certo empenho em ser mais agradável ao amor profano do que ao amor divino. Maurícia cantava exclusivamente para Ângelo ouvir; a vaidade tomara lugar da devoção.
Terminados os versos, ela veio sentar-se ao lado de Ângelo, junto de uma janela, enquanto as outras moças, que se haviam mostrado mal ensaiadas, ficaram ainda ao pé do piano para repetir o estribilho.
— Por que falou tão friamente com Sinhazinha? — perguntou Maurícia ao bacharel a meia voz. Há três meses não lhe falava assim.
— Quem lhe disse que eu falava de outro modo?
— De tudo, ando informada. A paixão tem linguagem mais viva ao seu serviço.
— Nunca senti paixão por Sinhazinha.
— Para que diz isto? Não desça do lugar que já ocupou no altar do seu coração aquele delicado ídolo.
— Quem lhe disse o contrário, faltou à verdade, D. Maurícia. Eu só senti uma paixão na vida; essa existe ainda tão veemente, tão profunda como nos primeiros tempos.
Maurícia sorriu tristemente.
— Cuida o senhor que, por estar morando distante duas léguas do Recife, não sei dos seus passos? Sinhazinha tem-lhe uma grande inclinação, que o senhor ainda retribuiria como nas primeiras semanas, se os seus trabalhos dramáticos não lhe tivessem voltado inteiramente a cabeça para o teatro, a ponto de o tornarem esquecido das suas mais íntimas afeições.
— Sei ao que pretende aludir - respondeu Ângelo, algum tanto contrariado. Foi tudo isso um sonho de poucos meses. Está tudo acabado.
— Não diga isso. Não é possível o que está dizendo. As paixões não se desvanecem como os sonhos. Aquelas que assim se desvanecem não são paixões, são pretensões materiais e falazes, são desejos desprezíveis que só podem ter morada em ânimos frívolos, em almas vulgares. Eu não compreendo as paixões deste modo. Eu as comparo com incêndios que ordinariamente terminam depois das grandes destruições, não deixando lama, senão cinzas.
Ângelo respondeu: — Nunca senti paixão por essa mulher, nem por Sinhazinha. A maior, a única que ainda me tomou na vida foi a que a senhora me inspirou. Esta existe ainda; existirá sempre.
— O senhor está enganado - disse Maurícia, sorrindo ironicamente.
— Enganado! Pensa que, se não fora a senhora, eu estaria aqui?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.