Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias ouvia atônito aquelas palavras do velho camarada e não ousava dar-lhes crédito. Eram seguramente delírios da imaginação de um moribundo, e em sua incredulidade quase se envergonhava de toma-las ao sério.
- Pobre Simão! . . . refletiu consigo, a razão já o vai abandonando com a vida! Não podia conceber que à cabeceira de um miserável moribundo a fortuna e a felicidade o esperassem, como por vezes o infortúnio costumava-se ocultar entre as rosas de um festim para nos desfechar um golpe fatal e imprevisto. Todavia não pôde deixar de interromper o velho, e dirigir-lhe com ávida curiosidade esta pergunta:
- Uma lavra! . . . tu deliras, meu pobre Simão! . . . onde está ela? . . .
- Eu já lhe conto. . . ah! se Vmcê. Não aparecesse tão a tempo! . . . Vmcê. está duvidando? . . . aqui está o que lhe há de fazer acabar de crer. . . é o diamante, que eu já tinha tirado. . . isto é seu. . . se Vmcê. Não aparecesse, tudo isto ia parar nas mãos daquela malvada mulher, Deus me perdoe a mim e a ela!
Dizendo isto o velho, com a mão trêmula e convulsa, ia tirando do pescoço um pequeno saquitel de couro preso a um cordão, em forma de bentinho, e o entregou nas mãos de Elias, dizendo-lhe:
- Corte e veja para acabar de crer, e não cuidar que já estou treslendo. . .
Elias puxou a faca que trazia presa à casa do colete, e cortou com cuidado o saquitel. Caiu-lhe na mão um punhado de grossos e lindos diamantes. Um lampejo de alegria raiou nos olhos empanados do moribundo que murmurou com voz surda:
- É seu; é tudo seu, patrão.
-mas, Simão, disse Elias, não deixas no mundo filho, irmão, parente ou amigo, a quem queiras beneficiar? . . . posso eu aceitar isto sem prejuízo de ninguém?
- De ninguém, patrão, de ninguém. Eu sou sozinho no mundo. Se o patrão não aparece tão a tempo, minha herdeira era essa velha desalmada. . . cruz! . . . Deus lhe perdoe. . .
- E quem é esta velha! . . . que pretendia ela? conta-me tudo.
- Eu já lhe conto. . . ah! . . . meu Deus! . . . que dor! . . . parece-me que vou já morrer! Meu Deus! . . . daí-me força por mais um instante para poder acabar. . .
Elias olhou para o céu e repetiu do fundo d’alma a súplica do moribundo. O velho acalmou-se um pouco e continuou:
- Há mais de um mês que caí entrevado e sem poder mover-me, meti-me neste ranchinho onde sempre tenho morado.
Achei-me sozinho e sem ter quem me tratasse, morreria aqui à fome e à míngua sem ninguém saber, se não fosse esta velha, única vizinha que há aqui mais perto e que, dando fé de mim que aqui estava abandonado, ofereceu-se para me tratar. Aceitei agradecido a esmola que me fazia e julguei que vinha mandada por Deus. O povo daqui, vendo-me assim andar arredado e sozinho e sempre a garimpar pelos matos, tinha tomado cisma comigo e andava dizendo que eu era feiticeiro, tinha parte com o diabo, e que neste meu ranchinho eu tinha arrobas de diamante enterrado. A velha que dava ouvido a estas coisas, e tentada pelo demônio, veio um dia dar busca em meu pescoço, enquanto eu estava dormindo. . . eu logo acordei e bem o percebi; mas ela já tinha descoberto o negócio. . . Foi a minha perdição. . . Ninguém mais entrou aqui senão ela e uma sua comadre, tão boa como ela, Deus a perdoe! que faz as suas vezes e me fica de sentinela, quando a outra tem precisão de sair. Assim há mais de um mês estou aqui no fundo desta cama. . . elas não me deixam sozinho um instante e não vejo outras caras senão as delas. . . O certo é que cada vez vou a pior e desconfio. . . mas, ah! patrão, por alma do defunto patrão velho, não vá dizer a ninguém nem faça mal a essas desgraçadas.
-mas desconfias o quê? . . . fala, fala, Simão.
- Desconfio que estão me preparando para ir mais depressa. Nestes dias, vendo que estava mesmo às portas da morte, disse a elas que tinha que fazer certas declarações e pedi-lhes que me chamassem um homem para escrever o que eu queria e algumas pessoas para testemunhas. . . Tempo perdido! . . . nunca mais acharam o tal homem. Por fim pedi que me chamassem um padre: o mesmo; nunca acharam padre para me confessar. Eu ia morrer sem confissão nas garras daquelas duas bruxas, Deus me perdoe! que estavam aflitas por me verem morto para me roubarem e deitarem meu corpo aos urubus. . . Mas nesta hora não devo lembrar-me das ofensas, senão para perdoar. Deus louvado! Vmcê. apareceu, e eu lhes perdôo de todo o coração.
- Ah! em que mãos estavas, meu pobre Simão! . . . mas a lavra, Simão? ainda não me disseste onde está a lavra? . . .
- Ah! . . . sim. . . a lavra é. . . ai! meu Deus! . . .
Deu um grito, estrebuchou, seus olhos se estalaram, escapou-lhe do peito um soluço rouquenho, e ficou imóvel.
- Simão! Simão! gritou Elias agitando-lhe o braço. Vendo porém que não dava indício algum de vida:
-morto! morto! exclamou com angústia, morto e levando consigo para a sepultura o segredo de minha felicidade!
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.