Por José de Alencar (1862)
O surpreendido fui eu, ouvindo vozes na alcova, onde tanto havia, já ninguém entrava. Enfiei o olhar pela fresta que deixava a sanefa de tafetá na porta envidraçada; e o que vi me fez empalidecer. A pessoa que estava com Lúcia era o Jacinto; ela abanava a cabeça; ele sorria com um ar de estúpida satisfação, e abria lentamente uma nojenta carteira de couro da Rússia.
Corri o aposento com uma vista rápida e ansiada: o leito estava desfeito e os móveis em desordem. O Sr. Jacinto tirara da carteira um maço de bilhetes do banco, que Lúcia escondera no seio com um expressivo gesto de contentamento. Não havia dúvida possível; as provas da infâmia eram evidentes; e para cúmulo do cinismo, o preço depois de regateado fora pago à vista. Uma parede que desabasse não me atordoaria como aquela cena a que eu acabava de assistir. Não sei quanto tempo fiquei ali, atirado contra a porta, sem sentidos nem espírito, somente com a consciência de uma imensa dor. Quando voltei a mim, a alcova estava deserta; o Jacinto tinha partido, e Lúcia cosia no toucador, cantando a meia voz. Hesitei se devia fugir para nunca mais ver semelhante monstro de mulher, ou se ficaria para lançar-lhe em rosto a sua ignomínia.
Conhecendo o meu passo, ela jogou de si a costura, e precipitou-se para mim; trazia o sorriso orvalhado de carícias, o olhar cheio de candura.
— Infame!
A indignação e o desespero que fermentavam no meu seio borbotaram nessa única palavra, grito e soluço de uma angústia cruel. Lúcia tornou-se lívida; vacilou. Com um supremo esforço dominando a vertigem que a tomava, cobriu-me com um olhar frio, cheio de tanta dignidade e altivez, que me colou imóvel sobre o chão. Assim pasmo e quedo, vi-a atravessar com lentidão a sala e desaparecer detrás de uma porta, que se fechou surdamente. Pareceu-me ouvir selar a lousa do túmulo, onde eu acabasse de sepultar uma porção de minha alma.
Lancei-me pelas ruas desatinado. Às quatro horas da tarde ainda eu vagava sem destino.
O Sá passava no seu tílburi; viu-me e parou:
— Que milagre é este: ressuscitaste!
— Não me fales nisso!
— Ah! estás apenas em convalescença; mas desta vez incumbo-me de curar-te, para que não tenhas nova recaída.
— Asseguro-te que não há mais perigo.
— Se não me engano, ainda não jantaste.
— Nem quero.
— Vem jantar comigo; entrarás imediatamente no regime higiênico que pretendo receitar-te.
Tomou as rédeas do cocheiro, que seguiu a pé, e ofereceu-me um lugar no tílburi.
Mais tarde Sá interrogou-me sobre o que se tinha passado; porém recusei constantemente satisfazer a sua curiosidade. Para que ele compreendesse o meu sofrimento, fora mister contar-lhe as minhas relações íntimas com Lúcia; e era esse mistério que invencível pudor d'alma não me deixava expor a outros olhos, fossem eles de um amigo.
Achei-me num estado de apatia moral; tinha medo da iniciativa, porque vagamente pressentia que ela me arrastaria de novo à casa de Lúcia, quando não fosse senão para ter o agro prazer de insultá-la com o meu desprezo. Nessa situação era natural que Sá não encontrasse a menor resistência no que ele chamava o regime higiênico da minha paixão.
Durante três dias corremos os arrabaldes da cidade.
Passávamos uma tarde a cavalo por Santa Teresa na direção da Caixa d'Água, quando vimos parado defronte de uma pequena casa, reparada de novo, o Jacinto. Esse homem me atraía, pelo ímã irresistível de Lúcia; e entretanto eu o detestava.
— Pertence-lhe esta casa, Sr. Jacinto? disse-lhe Sá respondendo à cortesia.
— Não, senhor. Pertence a uma pessoa do seu conhecimento, à Lúcia.
— Como! Lúcia vem morar numa casa térrea e de duas janelas? Não é possível.
— Também eu não acreditei quando ela me falou nisso! Cuidei que estava brincando; porém é negócio sério.
— Então comprou esta casa?
— E mandou prepará-la. Já está mobiliada e pronta. Devia mudar-se hoje; não sei que transtorno houve. Ficou para a semana!
— Está bem! São luxos de passar o verão no campo! Não lhe dou um mês que não esteja arrependida, e não volte para a sua casa da cidade.
— Para essa, há de ser difícil, disse o Jacinto com um sorriso.
— Por que razão?
— Vendeu-me o arrendamento e toda a mobília.
— Que diz!
— Na quinta-feira fechamos o negócio. Dei-lhe um conto de réis de sinal. Porém o mais interessante é que mandou fazer leilão de tudo quanto possuía, inclusive jóias e roupa.
— Terá ela caído na miséria?
— Qual! Tem perto dos seus cinqüenta contos e quer gozar da vida tranqüilamente. Doidice; podia fazer uma fortuna, e ajudar os outros.
O Jacinto cumprimentou e desceu a ladeira. A conversa que acabava de ouvir me tinha completamente perturbado; enquanto Sá aproximava-se do portão para examinar o jardim, ficara eu imóvel e perplexo. Por fim, impelido por uma força superior, segui precipitadamente o homem que levava consigo o sossego e tranqüilidade do meu espírito.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.