Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
Com efeito, d. Carolina ama o feliz estudante, e unia mistura de saudades e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a causa da sua tristeza; ajunta-se a isto a novidade e os cuidados de um amor nascente e primeiro, o incômodo de um sentimento novo, inexplicável, que lhe enchia o inocente coração e ver-se-á que ela tem suas razões para andar melancólica.
E portanto toda a família está assaltada do mesmo mal: há na ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos, desde a sra. d. Ana até a última escrava. Além de quanto se acaba de expor, acresce que Filipe se deixou ficar na cidade a semana inteira. sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar sua querida avó e a bonita maninha.
Eis porém, o que se chama acusação injusta. Diz o ditado que falai no mau, aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para aproveitar o domingo todo no seio de sua família; ei-lo aí que recebe a bênção de sua avó e beija a fronte de sua irmã.
— Pensei, disse aquela, que não querias mais ver-nos!
— E quase que deixei a viagem para amanhã, minha boa avó.
— O ingrato ainda o diz... ouves, Carolina?... Então por quê... Para vir na companhia de Augusto, que deve passar o dia conosco.
Estas palavras tiveram poder elétrico; d. Carolina, para ocultar a perturbação que a agitava, correu a esconder-se em seu quarto.
Lá, bem às escondidas, ela derramou uma lágrima: doce lágrima… era de prazer.
CAPÍTULO XX
1º. Domingo: ele marca
Augusto madrugou e muito. Quando a aurora começou a aparecer, já ele havia vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de... uma pessoa que tinha o mau costume de dormir até alto dia; por isso instava com os remadores para que forcejassem; e enquanto seu batelão deslizava pelas águas, rápido como uma flecha pelos ares, ele o acusava de pesado, de vagaroso; tinha há muito descoberto a ilha de... e os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais distintos; viu a casa, viu o rochedo em que outrora a tamóia deveria ter cantado seus amores, e sobre o qual cantara, havia oito dias, d. Carolina a sua balada; depois distinguiu sobre esse rochedo negro um ponto, um objeto branco, que foi crescendo, sempre crescendo, que enfim lhe pareceu uma figura de mulher, que ostentava a alvura de seus vestidos. Depois ele tinha desviado um pouco os olhos; quando os voltou de novo para o rochedo, a figura branca havia desaparecido como um sonho.
Enfim o batelão abordou à ilha de...; Augusto correu à casa de que tantas saudades sofrera; todos já se tinham levantado; ninguém dormia ainda, d. Carolina estava vestida de branco.
— Eu lhe agradeço bem, sr: Augusto, disse a sra. d. Ana, depois dos primeiros cumprimentos; eu lhe agradeço a sua boa visita; nós temos passado oito dias de nojo, e foi preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de sua vinda, para reviver nossa antiga alegria; Carolina, por exemplo, desde ontem à noite já tem estado sofrivelmente travessa.
— Eu, minha avó, sempre tive fama de desinquieta e prazenteira; e se ontem me adiantei, foi porque chegou-me um companheiro para traquinar comigo.
— Não o negues, menina; tens estado melancólica e abatida toda esta semana; eram saudades da agradável companhia que tivemos. Que eram saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas; e também não vai mal nenhum em confessá-lo.
D. Carolina voltou o rosto. Augusto arregalou os olhos e sentiu que a ventura lhe inundava o coração.
O mesmo por lá nos sucedeu, disse Filipe, tornando a palavra; estivemos todos carrancudos e, seja dito em amor da verdade, Augusto, mais do que nenhum outro, gostou de nosso trato e da nossa companhia; realmente foi ele o que mostrou sofrer maiores saudades.
— É verdade, sr. Augusto? perguntou a boa hóspeda.
— Minha senhora, a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor resposta que lhe posso dar.
D. Carolina tinha os olhos em um livro de música, mas seus ouvidos e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto: ouvindo as últimas palavras do estudante, ela se sorriu brandamente.
— De que estás rindo, Carolina? perguntou Filipe.
— De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro no Barbeiro de Sevilha. Então ele examinou o livro e viu que havia mentido, porque o que tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas de Laforge.
Duas horas depois serviu-se o almoço. Mas durante essas duas horas, que se passaram muito depressa, Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da avó de Filipe, que dizia ter por ele notável predileção, e também de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Em resultado de suas observações concluiu que d. Carolina estava bonita como dantes, porém mais lânguida; que às vezes reparava suas indiscrições e que outras, quando mais parecia ocupar-se com seu alegres trabalhos, olhava-o a furto, com uma certa expressão de receio, pejo e ardor, que a embelecia ainda mais.
Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos; finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de d. Carolina e que, se aí não estivesse, passaria despercebido.
— Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado, disse Augusto.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.