Por Visconde de Taunay (1872)
E na estrada areenta, à luz do astro que descambava, foi-se tornando comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, à medida que ele marchava atrás do seu camarada, do cargueiro e da coleção entomológica.
CAPÍTULO XXIII
A ÚLTIMA ENTREVISTA
Está a máscara da noite sobre meu rosto: a não ser ela, verias as minhas faces tintas do rubor virginal.
(Shakespeare, Romeu e Julieta, Ato 11).
Mais cresce a luz, mais aumentam as trevas das nossas desgraças.
(Idem. Ato IV).
Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no sistema de viver daquela vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da natureza moral, mas que ali apresentava cores algum tanto carregadas, senão já sombrias.
Fora Pereira dormir no interior da casa, passando ali a maior parte do tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo impossíveis, e, não tendo mais a atenção do mineiro o alvo que sempre colimara durante a estada do alemão, começava como era de prever, a voltar-se para Cirino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta prevenção.
— Hoje, dizia o mineiro, dói-me a consciência do modo por que desconfiei daquele homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola? Senhor Cirino, quando a gente entra a dar volta ao miolo.. é que vê que todos têm queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o tal alamão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a bonitinha... e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou... Enfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Receei e tomei tento...
Amiudando-se estes e outros dizeres iguais, deram que refletir a Cirino. De uma hora para outra compreendeu que as vistas inquisitórias poderiam tornar a sua posição insustentável.
Por enquanto tratou de encontrar-se com Inocência. Grandes eram as dificuldades; o meio único, tentar novamente as entrevistas noturnas; pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras, ficando ali com os olhos presos à janela da querida do coração.
Certa madrugada, viu afinal a sombra de Inocência.
Achou-se, num ápice, o mancebo junto dela e agarrou-lhe com violência nas mãos.
—Enfim, exclamou ele, eu a vejo.
—Meu pai, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, pode acordar...
— Não importa, replicou Cirino desabrido, descubra-se tudo... não posso mais viver assim,..
—Xi! observou ela, cuidado! Se ele nos acha aqui, mata-nos logo... Olhe, vá-me esperar junto ao corguinho para lá do laranjal... daqui a nada vou ter com mecê... A porta esta só encostada . . .
O moço fez sinal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do pomar.
Aquela hora dava a Lua de minguante alguma claridade à terra; entretanto, como que se pressentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com súbito esplendor e infundir animação e alegria à natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de pássaros prestes a despertar, um gorjeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabia mais madrugador desfiava melodias que o silêncio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dúbias linhas vermelhas, prenúncio mal percebível da manhã; nos espaços pestanejavam as estrelas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarelada névoa empalecia o tênue segmento iluminado do argênteo astro.
Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão comovido se sentia Cirino, que teve de sentar-se, enquanto esperava por Inocência.
Esta não tardou: vinha vestida de uma sala de algodão grosseiro e, à cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda, cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o hábito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, contudo, a primitiva elegância e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lágrimas a
fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.
—Inocência, exclamou ele notando um gesto de dúvida, nada receie de mim... Hei de respeitá-la, como se fora uma santa... Não confia então em mim?...
—Sim! disse ela apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto, estou com a cara ardendo... de vergonha...
E levando uma das mãos de Cirino às suas faces:
—Veja, Cirino, como tenho o rosto em brasa...
Por que é que mecê veio bulir comigo? Eu era uma moça sossegada... agora, se mecê não gostasse mais de mim... eu morria...
— Deveras?
—Eu lhe juro... é mais fácil apagarem-se de repente estas estrelas todas, do que eu deixar de amá-la...
—E Manecão? perguntou ela com terror.
—Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...
—Há de ser meu marido...
—Isso nunca, Inocência... É impossível!... E se fugíssemos?... Olhe, amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons animais... Você monta num, eu noutro... batemos para Sant'Ana e, a galope sempre, havemos de chegar a Uberaba... onde acharemos um padre que nos case... Vamos, ouviu?
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.