Por Franklin Távora (1879)
— Tens medo dessa mulher, Ângelo — disse Martins, concluída a leitura da carta. E como é possível que ela algum dia volte a repetir a luta com o amor maternal para lhe disputar o seu penhor predileto, não será por demais quebrar esta arma que ela deixa em tuas mãos contra ti mesmo.
Dizendo estas palavras, Martins fez o gesto de rasgar a carta de Júlia. Ângelo correu a tolher que ele levasse a efeito a intenção apenas denunciada.
— Não rasgues a carta.
— Peço-te perdão, Ângelo. O crime está cometido.
Os pedaços, em que Martins pusera o papel, rolaram aos pés dos dois amigos.
— Não me queiras mal por isso. Quebrei uma arma que estava dirigida contra o teu coração.
— Receias que façamos as pazes? É impossível. Depois, Júlia embarcou ontem. Não viste a data da carta? Foi escrita há três dias. Não é uma mulher vulgar.
Pode mais que o seu amor.
— É ainda este juízo que formas dela? Queres saber porque foi que deixou o Recife? É fácil de compreender esta abnegação. Do Maranhão ofereceram-lhe maiores vencimentos. Mas ou a verdade esteja contigo, ou comigo, dou-te os parabéns, e vou pedir alvíssaras a tua mãe.
Martins ia sair, quando volveu imediatamente sobre os seus passos.
— Tinha-me esquecido de dizer-te que Maurícia chegou ontem à noite a Caxangá, disse.
— Ah!
— Não te admires. Se não andasses tão longe do mundo onde vives, se não tivesse até estas presentes horas o espírito tão perto da luz, já terias acertado com a origem da vinda dela; Vê lá se podes adivinhar.
Ângelo em vão procurou o alvo indicado pelo amigo. Foi para ele um ponto inacessível, invisível, um mistério impenetrável. O que em seu entendimento desenhou-se imediatamente com as mais vivas tintas foi a imagem de Maurícia tal qual a vira ele na tarde rica de encantos e ilusões em que fora com ela do Caxangá até a porta do engenho. Lembrou-se das cenas vivas, das frases apaixonadas, dos castelos brilhantes que depressa se haviam desvanecido como neblinas. Teve saudades daquela criatura esplêndida, que ele durante os quatro últimos meses odiava e desprezava.
Martins tirou-o do seu enleio com estas palavras:
— Estamos em vésperas de dezembro.
— Quererás dizer que ela vem passar todo o mês, que vai entrar, na estrada de João de Barros?
— Não, Ângelo. Ela vem ensaiar os versos que deve cantar por ocasião das novenas da Conceiçõazinha, as quais prometem este ano ser esplêndidas. Não hás de faltar.
— Quais são as cantoras?
— As que costumam cantar todos os anos, as nossas vizinhas mais próximasIaiá, Sinhazinha e outras. Aposto que não sabes mais quem é Sinhazinha acrescentou com ares brejeiros.
— Hei de reconhecê-la, hei de reconhecê-la - tornou Ângelo, não sem rápida perturbação.
Então, Martins, trocando os ares de há pouco pelos que assumem as pessoas picadas que repelem a palavra ou gesto ofensivo, redargüiu:
— Pois não hás de reconhecê-la, Ângelo. Tu a puseste a um passo da sepultura.
— Eu?
Martins saiu, deixando o amigo absorto em mil conjeturas, que revoavam entre a forma de Maurícia e a da filha de D. Sofia como bandos de irrequietas aves, mensageiras de próximas tormentas, tão naturais nos corações humanos.
CAPÍTULO XVII
Compreendendo Maurícia quanto devera custar a Ângelo aproximar-se dela depois dos fatos passados nos últimos meses, tomou a resolução de ser a primeira que fosse ao seu encontro; e, na mesma tarde da entrevista dos dois amigos no escritório, dirigiu-se à casa de D. Rosalina com o fundamento de visitar D. Matilde, mãe do bacharel.
D. Matilde era um tesouro de afetos e qualidades raras, entre as quais primava a naturalidade nas palavras e ações, que muitas vezes vale mais que a urbanidade, prenda dos espíritos cultos, mas nem sempre indício de bom coração.
Se na visita houve pretexto, houve também o desejo que Maurícia alimentava, desde que vira Ângelo, de conhecer D. Matilde.
A visita foi motivo de prazer para as duas senhoras. Como se de há muito as ligara forte laço de afetuosa e provada amizade, a maior franqueza e mais larga confiança animaram a conversação. Falaram de si e dos entes que mais estimavam na terra; falaram dos seus infortúnios, da sua descrença e das suas esperanças; nem foram esquecidos na prática amiga os seus hábitos, os seus desejos, as suas inclinações. Para tão larga expansão não contribuiu pouco estarem sós, visto que D. Rosalina tinha saído com sua irmã e as crias a passeio pela arrabalde.
Quando Ângelo penetrando na sala, deparou ao lado de D. Matilde a mulher que te novo começava a ter em seu pensamento o primeiro lugar depois de sua mãe, empalideceu e emudeceu um momento com o inesperado abalo. Vendo-o perplexo, Maurícia levantou-se, encaminhou-se para ele e estendeu-lhe a mão, que ele tomou com solicitude.
— Não se admire de me ver aqui, disse ela. Não se lembra de que, conversando comigo em casa de meu cunhado - vai para seis meses - declarou que teria prazer em aproximar-nos? Apressei-me em proporcionar-lhe esse prazer.
A esta amabilidade, que parecia vir do intrínseco da alma de Maurícia, correspondeu Ângelo com amabilidade senão tão íntima, certo de não inferior cortesia.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.