Por Franklin Távora (1876)
Nova surpresa os esperava na margem, onde o bandido foi dar com dois indivíduos que de pé o olhavam do alto de uma pedra, tendo um deles pelo cabresto o árdego alazão, já livre da peia com que o atirara ao campo o Cabeleira.
Defronte da árvore, a cuja sombra os fugitivos haviam descansado, formava o terreno uma grande ribanceira.
Os desconhecidos estavam aí com a frente voltada para a vazante, o lado direito para o continente, e o esquerdo para o rio, que nessa altura era largo e profundo.
— Parece que você veio enganado, camarada — disse o Cabeleira, saltando em um minuto aos pés daquele que tinha pela mão o cavalo. — Este animal não lhe pertence.
— Este animal é meu no céu e na terra. Há dois dias o furtaram do meu roçado no Angico Torto. Pus-me na batida do ladrão, e finalmente vim dar com o meu cavalo. Ele é meu, tão certo como estou aqui. Tem o meu ferro na anca direita, e você o pode ver, se ainda não se quis dar a esse trabalho.
— Pois o que eu lhe digo, camarada, é que fosse ele de quem fosse, por mais homem que seja, ninguém será capaz de tirá-lo do meu poder.
— Isto agora é que havemos de ver — disse o desconhecido, batendo mão da faca que trazia no cós da ceroula e fazendo-se prestes para lutar pela reivindicação da sua propriedade.
— Monta no teu cavalo, Marcolino — gritou o outro desconhecido ao companheiro; — monta no teu cavalo e vai-te embora, que eu só sou demais para lamber este cabra.
Ainda bem não tinha acabado, quando cortava os ares um corpo semelhante a tronco de árvore que o furacão arrebata às florestas e arroja a distancias incomensuráveis. O fanfarrão fora jogado com todos seus bélicos aprestos dentro do poço pelas mãos possantes do famoso matador.
— Cabeleira ! — gritou Luísa, correndo ao lugar onde em menos de um instante se passara a inesperada cena.
Marcolino, que a esse tempo se achava montado no alazão, tendo ouvido este fatal apelido, deu de pernas ao cavalo e fugiu evidentemente aterrado como se a seus pés houvesse visto cair um raio.
O Cabeleira, entretanto, tinha corrido ao pé da ingazeira onde havia deixado o bacamarte quando se apeara. Mas não logrou levá-lo ao rosto para dispará-lo como pretendia, contra o fugitivo, porque Luísa, unindo-se com ele, e buscando arrancarlhe a arma das mãos, lhe disse com voz magoada, entre exprobração e pranto:
— Por que não me tira a vida de uma só vez, Cabeleira ?
Diria que Luísa estava possuída de um espírito angélico.
— De ontem para cá — prosseguiu ela — tem jurado milhares de vezes não derramar mais sangue sobre a terra, e milhares de vezes tem quebrado seus juramentos ! Sempre que falta à sua palavra, atravessa sem o suspeitar o meu coração com sua faca. Não demore mais o meu penar, mate-me de uma vez. Perdôo-lhe a morte, por Deus lhe juro, por Deus que nos está ouvindo no meio desta solidão.
Luísa tinha-se insensivelmente ajoelhado aos pés do bandido, e lhe abraçava as pernas com mostras de irrepreensível afeto. Dos olhos rolavam-lhe lágrimas como contas de rosário espedaçado.
Estático, e confuso, não achou José palavras para responder à exprobração e rogativas que aquele coração generoso ditava inspirado pela piedade de uma alma grande e terna.
— Não me fale assim, Luisinha — respondeu enfim o bandido, levantando-a e abraçando-a.—Quando eu a vejo chorar, sinto-me enfraquecer; quando você me pede alguma coisa, sou incapaz de negar-lhe, ou de resistir à sua vontade.
— Mas de que serve o que me diz, se não se esquece da sua vida tão triste e infeliz ? Cabeleira, por que não se há de tornar brando e terno como Luísa ? Olhe. A morte está mais perto de mim do que...
— A morte ! — exclamou o bandido.
— Sim; dentro em pouco eu o deixarei, mas enquanto não nos separarmos, poupe-me estas cenas que me transpassam o coração. Quando eu desaparecer de seus olhos, não se considere só no mundo. No lugar que meu corpo deixar vazio ao pé de si, há de ver sempre a alma benévola da pobre Luísa; ela o acompanhará por toda parte para inspirar-lhe os bons pensamentos e aconselhar-lhe a prática das boas ações. Por que não me dá consolação de reconhecer em você desde já um espírito arrependido dos passados erros ?
— Ah! Luisinha! Você me abranda com suas palavras, em sua presença eu me considero uma criança.
— É Deus que me ajuda a quebrar seus ímpetos, a moderar sua cólera. Ele há de ouvir todos meus rogos, há de inspirar-lhe horror ao sangue e aos instrumentos que o derramam.
Cabeleira, como se tivesse recebido nestas palavras aviso celeste, replicou:
— Não levantarei mais minha mão contra ninguém, Luisinha. Quer uma prova desta resolução ? Veja. É a maior que lhe posso dar.
Tirou o fuzil e a pedra do bacamarte, os quais meteu na algibeira da véstia.
E por um desses sublimes impulsos que só visitam o homem uma vez na vida, arremessou a arma dentro do rio. Este ato foi seguido de outro que o completou e confirmou. Batendo com a faca sobre uma pedra que ficava na ribanceira, fez saltar dentro da água metade da folha de aço que tinha cortado o fio de muitas vidas preciosas, e feito correr muito sangue inocente sobre a terra.
O bandido obrou estas duas ações com tanta fé e grandeza d'alma, que Luísa correu a ele dominada de peregrina comoção, e o apertou em seus braços.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.