Por Bernardo Guimarães (1872)
A moça pôs as mãos ambas sobre o ombro do padre, e fitou-lhe o rosto com um olhar e um sorriso, que resumiam um longo poema de amor. Os olhos alucinados nadavam-lhe em eflúvios de ternura, e o bafejo tépido e suave escoandose por entre a rosa dos lábios entreabertos afagava as faces do mancebo. O xale em que se envolvia, tinha-lhe escapado dos ombros, e os dois pomos mal cobertos pulavam-lhe no seio inquietos e ansiosos, como duas rolinhas implumes, que forcejam por saltar do ninho.
No quarto de Margarida reinava uma luz frouxa, que entrava por uma janela de empanada; o ar estava impregnado do aroma inebriante das flores, que ornavam a mesa. A velha tinha saído, e naquela casa só se achavam os dois...
Margarida encostou a cabeça ao ombro de Eugênio e este envolveu-a em um abraço.
— Um momento de suprema felicidade!... depois o inferno! que importa!...
CAPÍTULO XXIV
No dia seguinte, que era um domingo, o padre Eugênio tinha de dizer a sua primeira missa na vila de Tamanduá.
O pai fazia uma grande festa, a que havia convidado a melhor gente do lugar. Era um dia de regozijo e prazer para a família, e de grande expectação para os demais habitantes. Depois da missa um lauto jantar esperava os convidados.
Muitos parentes e amigos da família de Antunes, que tinham batizados e casamentos a fazer, estavam esperando pela vinda do padre Eugênio, querendo ter o gosto de ver esses sacramentos ministrados por suas mãos.
Portanto o padre teve de apresentar-se na igreja muito antes da hora da missa, a fim de ter tempo de celebrar esses batizados e casamentos.
Quando o sacrílego padre entrou no templo, dizem que os sinos, sem que ninguém os tocasse, deram badaladas fúnebres, e que um tufão escancarando a porta interior do frontispício entrara pela nave e apagara a lâmpada do santuário.
O padre estava de palidez cadavérica, e seus olhos desvairados despediam de quando em quando lampejos torvos e sombrios.
Sinistros pensamentos lhe ondeavam desencontrados pela mente agitada, como nuvens que se despedaçam por um céu tempestuoso ao sopro rijo das refegas.
Precipitado do alto do seu puro e austero ascetismo no abismo da fraqueza, o espírito do padre tombou em outro abismo mais fundo e talvez mais degradante. Atassalhado de remorsos, de vergonha e desesperação, julgando-se perdido sem remédio e para sempre, entregou-se de corpo e alma à torrente da fatalidade que o arrastava.
— Já que assim o quiseram os homens — murmurava consigo -, já que assim o ordena a sanha irresistível do destino, assim seja; serei um padre sacrílego, um padre infame, como tantos outros, que todos os dias profanam com mãos impuras os vasos do altar e a hóstia sacrossanta. Era essa a sina fatal que desde o berço me estava fadada... Margarida não morre... o que a atormenta não é mais do que uma deplorável apreensão... O céu não quis que eu fosse seu esposo, o inferno me fez seu... que horror, meu Deus! que abominável sacrilégio!... mas... já agora que hei de eu fazer... caí até o fundo do abismo, donde nunca mais poderei levantarme. Ah, celibato!... terrível celibato!... ninguém espere afrontar impunemente as leis da natureza! tarde ou cedo elas têm seu complemento indeclinável, e vingam-se cruelmente dos que pretendem subtrair-se ao seu império fatal!...
Apenas o padre tinha acabado de fazer uma breve oração no altar do consistório, quando a ele se dirigiu uma pobre velha e lhe pediu pelo amor de Deus para fazer a encomendação a um cadáver que ia dar à sepultura, e que se achava no corpo da igreja.
O padre ficou transido de horror. Afeito a esse triste espetáculo, Eugênio não era medroso; mas desta vez sem saber por que, sentia um pavor irresistível. Um suor gelado inundava-lhe a testa, e as artérias lhe titilavam nas fontes com dolorosa vibração; mas não podia deixar de cumprir esse piedoso dever para com um morto. Vestiu a sobrepeliz, tomou o ritual e acompanhado do sacristão, que levava na não o hissope, dirigiu-se para o corpo da igreja.
Num pobre caixão sem tampo, pobremente amortalhado, inteiriçava-se um corpo de mulher. Dois tocheiros ardiam de um lado e outro da cabeceira do caixão. Um lenço branco cobria o rosto da finada, e sobre o seu peito via-se uma capela de alvas flores, símbolo da virgindade.
O templo estava quase deserto; apenas aqui e ali algumas velhas ajoelhadas murmuravam em voz baixa suas orações.
O sacristão para se dar começo à encomendação, tirou o lenço ao rosto da finada; o padre soltou um grito rouco e sufocado, cambaleou, e teria baqueado em terra, se não deparasse o braço que o sacristão lhe apresentava para escorar-se. A finada era Margarida!
— Que tem, senhor padre? está incomodado? perguntou-lhe o sacristão.
— Não há de ser nada... passei mal a noite, e... não estou ainda acostumado a estas coisas... ia tendo uma vertigem.
O padre limpou o suor gelado, que lhe inundava a fronte, e desempenhou atabalhoadamente, sem saber o que fazia, a sua cruel e fúnebre tarefa.
Chegando ao consistório, depois de ter dito ao sacristão, que os batizados e casamentos se faziam depois da missa, debruçou-se sobre a credência e escondendo o rosto entre as mãos ali ficou imóvel por largo tempo orando, chorando, delirando.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.