Por Bernardo Guimarães (1869)
Em um espaçoso salão da taba de Oriçanga, ornado com todo o luxo de que os selvagens podem lançar mão, achava-se reunido o que se poderia chamar a corte do velho cacique. Em um ângulo da sala Guaraciaba cheia de emoção, que dá a felicidade, recostada em uma fina rede ricamente entretecida de lindas e mimosas penas, como uma rolinha deitada em ninho de flores, mal tomava parte nos brinquedos e conversas das companheiras, que a rodeavam. Estas, assentadas a seus pés sobre macias peles ou esteiras delicadamente tecidas, brincavam e garrulavam como um bando de andorinhas em manhã de primavera. Um guerreiro simplesmente ataviado, como quem viera dos combates, e não de festas e regozijos, se aproxima respeitosamente dela, e diz-lhe:
— Guaraciaba, raio de luz, flor de beleza, esposa feliz do poderoso e invencível Itajiba, venho anunciar-te que teu irmão Anhambira é vivo, e se o quiseres, poderás vê-lo neste momento.
A estas palavras Guaraciaba salta alvoroçada fora da rede, como o filho da ema que acode pressuroso ao grito da mãe que o chama com o alimento no bico.
— Que dizes, guerreiro? exclama ela; é vivo Anhambira?... quero vê-lo e já. Neste feliz dia o céu como que porfia em colmar-me de todas as aventuras!
— Sim, Guaraciaba, teu irmão é vivo, está entre nós, e te espera não longe daqui; por milagre escapamos eu e ele ao furor dos inimigos; se desejas vê-lo já, acompanha-me.
— E por que não vem ele mesmo aqui apresentar-se?
— Porque sendo amigo íntimo de Inamá não quer aparecer diante de Itajiba, e deseja falar contigo a sós; por isso me enviou para fazer-te este pedido.
— Pois irei eu mesma vê-lo, visto não estar longe, e o trarei para a taba de meu pai, onde será sempre bem-vindo.
E Guaraciaba deixou suas companheiras, às quais disse voltava naquele momento, e acompanhou pressurosa ao guerreiro, que a guiou à cabana isolada em que se achava Anhambira.
Poucos momentos depois outro guerreiro de igual aparência aproxima-se com ar misterioso de Itajiba, que na outra extremidade da sala recebia as homenagens e felicitações dos que o rodeavam, e diz-lhe em voz baixa:
— Itajiba, queres saber quanto é fiel a esposa que possuis?
Sobressaltado com tão extraordinária pergunta, Itajiba responde:
— Estás louco, guerreiro! a que propósito vem a tua pergunta? quem melhor do que eu conhece a meiga e fiel Guaraciaba?
— Ah! Itajiba, não a conheces, não.
— Insolente! diz Itajiba impaciente; não fora hoje um dia de regozijo para todos e de venturas para mim, eu fizera punir teu indiscreto arrojo.
— Itajiba, volve-lhe o guerreiro sem abalar-se e abaixando ainda mais a voz, olha que Inamá é vivo e acha-se entre nós; se queres saber mais, acompanha-me por alguns momentos.
Itajiba, atônito e sem compreender bem o sentido das estranhas e intempestivas palavras do guerreiro, reflete e hesita um momento; olha para o ângulo da sala em que se achava Guaraciaba, e não a vê mais ali; estremece; um pensamento sinistro lhe atravessa de súbito o espírito, e no mesmo instante se esvaece como um relâmpago; seria um crime conceber suspeitas por mais leves que fossem, em qualquer tempo, quanto mais naquela noite, contra a mais pura e a mais adorável das virgens da floresta. Mas as palavras do guerreiro eram ambíguas, a curiosidade tão natural em tais circunstâncias agita o espírito de Itajiba, que entendeu que nada perderia em decifrar aquele mistério. Portanto lançando mão de um arco e flechas diz ao guerreiro: vamos, e acompanhou-o de perto. Alguns dos circunstantes observando aquela cena, de que nada compreendiam, e que tinha um não sei quê de inquietadora e sinistra, os acompanharam também a curta distância. Guiado pelo índio Itajiba chega à taba encoberta entre arvoredos, na qual Guaraciaba e Anhambira se abraçavam ternamente na suave efusão do amor fraterno.
Chegado à porta o guia brande um facho que trazia nas mãos, e que imediatamente lança um vivo clarão no interior da taba, e apontando para dentro murmura ao ouvido de Itajiba:
— Olha! não os conheces? Guaraciaba e Inimá!
E Itajiba vê distintamente Guaraciaba com os braços enlaçados ao colo de um jovem guerreiro, que no semblante e beleza do porte parecia perfeitamente a figura de Inimá!
— Infames! rugiu, e imediatamente estica o arco: voou zunindo o tiro, e os dois míseros irmãos, varados no peito por uma só flecha, rolaram no chão sem vida.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.