Por Bernardo Guimarães (1872)
Se com os trajos selváticos Jupira por seu garbo e gentileza fazia lembrar uma Moema ou uma Lindóia, vestida à maneira da gente civilizada era uma rapariga sedutora, capaz de alvoroçar o coração e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem-feita. Os cabelos negros, corredios e luzentes como asa do anu, eram tão bastos e compridos que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em apuros para acomodá-los sobre sua pequena cabeça e muitas vezes rebelando-se contra as fitas e prisões, as quebravam e tombando-lhe pelo colo se derramavam em liberdade pelos nédios e morenos ombros. Os olhos um pouco levantados nos cantos exteriores, eram bem rasgados, e dardejavam das pupilas negras lampejos, que denunciavam o ardor de seu temperamento e uma alma enérgica e resoluta. Os lábios rubros, carnosos, e úmidos eram como dois favos túrgidos de mel da mais inefável voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas de alvíssimos dentes um pouco aguçados como os dos carnívoros, e seu sorriso tinha singular e indefinível expressão de ingenuidade e de selvática fereza. A todos esses encantos, a todas essas linhas e voluptuosas formas, servia como de brilhante invólucro a tez de uma cor original, um róseo acaboclado, como que dourado pelos raios do sol, que dava peregrino relevo à sua linda figura.
Quando ia à missa aos domingos, na pequena capela do seminário todos os olhos voltavam-se para a interessante cabocla, todos a contemplavam sorrindo com o mais curioso interesse e complacência. Até mesmo os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido, com que vergava as suas vestiduras, tudo nela parecia galante, e encantador.
Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome indígena de Jupira, por acharem-no mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.
É escusado dizer, que não faltaram apaixonados àquela tão sedutora quão peregrina formosura. Mas como já corria pela aldeia a história da morte do cacique que às mãos da frágil menina pagara com a vida a sua audácia, os amantes de Jupira tinham-lhe certo respeito, e não a requestavam senão com certa timidez e reserva, se bem que nenhum deles tivesse intenção de lançar-lhe mãos violentas. Mas aquele episódio de sua vida rodeando-a de um terrível prestígio servia-lhe de salvaguarda, e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.
Entre os amantes de Jupira o mais assíduo, ardente e apaixonado, e
talvez também o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era um mancebo por nome Quirino, filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores. Era um rapagão alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila ardente e viva, em que transluzia todo o fogo de sua alma capaz de todos os extremos.
Quirino amava, não como se ama na cidade, onde se namora muito e ama-se quase nada, mas como se ama no sertão, em meio da solidão, debaixo daqueles céus ardentes, no seio daquela natureza esplêndida: amava com paixão, com fogo. Quirino freqüentava assiduamente a casa de José Luís, onde cercava a rapariga de mil atenções, obséquios e adorações, sem que ela nem de leve se mostrasse sensível a tantas demonstrações de afeto, por mais que ele empregasse todos os meios ao seu alcance para ganhar-lhe o coração. A princípio nem lhe passava pelo pensamento casarse com uma pobre cabocla filha de uma gentia e criada nos matos.
Porém quanto maior era a insensibilidade e esquivança de Jupira, mais ardente se tomava a paixão do rapaz, e mais se lhe atiçava o desejo de possuí-la; estava disposto a empregar todos os meios, a fazer todos os sacrifícios para esse fim.
Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferença e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insensível esquivança não era senão resultado dos poucos anos e da selvática timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um moço como ele era, bem apessoado, rico e de boa família. Depois de ter lutado em vão por vencer a obstinada indiferença da menina, era aquele o seu último recurso. Uma vez casado mais fácil lhe seria catequizá-la e ganhar-lhe a vontade e o coração.
Demais, já esse casamento não lhe parecia tão ridículo e desigual, pois Jupira era filha legítima de José Luís, e José Luís empregado do seminário, tinha adquirido alguns bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e consideração no lugar. Quirino pois, não hesitou mais um instante, e foi pedir-lhe a mão de sua filha.
José Luís acolheu com infinita satisfação a proposta do mancebo; não podia desejar melhor partido nem maior ventura para sua filha, e foi logo comunicar-lhe a pretensão do moço.
Ela porém com grande pasmo e desgosto de José Luís recusou-se obstinadamente a semelhante casamento. Foi debalde que José Luís por muitos dias lutou com ela empregando exortações, conselhos, súplicas e até por fim repreensões e ameaças para induzi-la a aceitar a mão de Quirino.
– Meu pai, – disse-lhe ela afinal com um sorriso, que fez arrepiaremse as carnes de José Luís, – ninguém será capaz de dar-me um marido contra a minha vontade; eu já sei como a gente se livra deles, quando nos querem levar à força!
José Luís assombrado com aquela resposta recolheu-se ao silêncio, e desistiu do seu propósito.
Capítulo VI
Quirino enganava-se; a indiferença de Jupira para com ele não era simples efeito da timidez selvática, nem da inocência própria dos verdes anos da rapariga; tinha outro motivo mais poderoso, o qual Quirino absolutamente ignorava. Para aquele temperamento de fogo, para aquela alma inflamável, aos quinze anos o amor era uma necessidade imperiosa, Jupira começava a amar outro.
O leitor há de se lembrar de Carlito, sobrinho de José Luís, aquele menino travesso que ele pusera como sentinela a sua filha durante a sua anterior estada na casa paterna.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.