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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnífica borboleta. não pensava senão em partir

—Oh! dizia ele, eu quisera estar já em Magdeburgo... Quantas léguas, Mein Gott!... Papilio Innocentia... a minha glória! Que diz, senhor Cirino?...

—E verdade... mas quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...

—Não, é impossível... Era felicidade demais... Além disso, o dinheiro não me havia de chegar.

—Oh! posso emprestar-lhe....

—Muito obrigado... mas é de todo Impossível a minha estada aqui... Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapuã, a Miranda, a Cuiabá para então voltar... E só me restam poucos meses... A Sociedade Entomológica de Magdeburgo conta comigo na primavera do ano que vem...

Metida uma vez essa idéia na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao prometido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar cargas às costas do burro, depois de as ter, ele próprio, arranjado e revistado com toda a cautela. Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:

—Mochu, disse ele, vai recomeçar com o seu modo de andar por essas estradas à noite.. Afinal havemos todos de cair nalguma buraqueira, eu, o senhor, o barro de carga e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de Janeiro, nem eles e o senhor à sua terra. Enfim, já estou cansado de o avisar.

No momento da partida, apresentava o naturalista aquele mesmo aspecto da célebre noite da chegada; eram aquelas mesmas frasqueiras a tiracolo, aquele mesmo ar tranqüilo e bonachão com que viera, fora de horas, pedir pousada a casa de Pereira.

Este, ao ver o hóspede a cavalo e prestes a deixar para sempre a sua morada, sentiu-se possuído de alegria, mesclada, sem saber por que, com surpresa repentina e intima, de tal ou qual comoção. No fundo, achou de si para si as desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela simpatia que em todos incutia o caráter naturalmente inofensivo e meigo do saxônio.

—Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.

E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:

—Senhor Pereira, meu amigo, adeus!... nunca mais nos havemos de ver... mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha pátria, daqui a milhares e milhares de léguas... pelo pensamento recordarei os dias felizes...

que aqui passei.

—Oh! Senhor Meyer, balbuciou Pereira.

—Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque correram...

sem eu perceber que o tempo estava caminhando... De todo o Brasil fica em mim a lembrança... mas desta sua casa... essa lembrança é mais viva e mais forte.

Acompanhara o alemão o seu pensamento com acentuado gesto, acenando com o punho fechado para mostrar a lealdade daquelas impressões. Voltando-se para Cirino, acrescentou:

—Senhor doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno... O senhor pode enganar-se às vezes... mas as suas intenções são sempre boas... e isso basta para desculpá-lo... Eu...

Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cirino e Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lágrima comprida deslizou-se-lhe pela face, sem que a fisionomia mostrasse a menor alteração.

—Adeus! concluiu ele de repente.

—Boa viagem, Senhor Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a cavalo.

—Adeus! adeus... repetiu ele...

E interpelando o camarada:

—Juque, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é daqui a meia légua...

Deu Meyer então de rédeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho, este munido de cabeçudo cacete, evidentemente hostil as costas do cargueiro entregue aos seus cuidados.

—Lá vai o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. E um alivio... Ele, coitado, não era mau... mas não tinha modos... Safa, hei de me lembrar para sempre do tal senhor Meyer! Foi uma campanha.. Ué... Olhe, senhor Cirino... não está ele de volta?... Teria esquecido alguma bugigangas

Com efeito reaparecia a trote o alemão em carne e osso, como quem vinha procurar ou dizer coisa de importância.

—Então que tem? perguntou Pereira adiantando-se e alçando a voz. Deixou algum trem? Daqui a pouco é escurão.

Meyer, no entanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a razão da volta:

—Não deixei coisa alguma, senhor Pereira. Tão somente faltei a um dever.

—Qual é? indagou o mineiro.

—Não me despedi de sua filha...

—Ah! replicou Pereira com vivacidade... não era preciso... tanto mais que ela... está dormindo... meio adoentado... Há pouco tinha muito peso na cabeça... Eu lhe hei de dizer... Não se incomode . . .

—Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre na ciência e a estima em que a tenho é grande... E uma moça muito bela... digna de ser vista na Europa...

—Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto...

—Sim, eu me vou, adeus!

—Vá indo... olhe que o Sol dobra de repente aquele mato e a noite cai logo... —Sim, sim, adeus, disse ele despedindo-se de uma vez.

(continua...)

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