Por Franklin Távora (1876)
— De que chora, Luisinha ? — perguntou-lhe o bandido com doçura.
Só com a mudez e as lágrimas lhe respondeu a moça, em cujo espírito se haviam concentrado todas as sombras da tristeza, sombras espessas em que o sol a pino não pode lançar um raio de luz sequer.
— Está cansada, não é, meu amor? — perguntou o Cabeleira. — Estou para morrer. Sinto uma pena imensa no coração, e dores insuportáveis na cabeça.
— Não me queira mal, Luisinha, por eu ter sido a causa de todo este destroço.
— Não lhe quero mal; quero-lhe bem, muito bem, Cabeleira. Mas não posso esquecer-me de minha mãe, nem poderei resistir à minha desgraça, que eu considero muito maior do que a sua.
— Descansemos um pouco à sombra deste jatobá. Terei tempo de procurar algumas frutas para você comer.
— Não tenho fome, só tenho sede.
— Vamos então arranchar-nos debaixo daquela ingazeira, que fica a poucos passos do rio.
Tendo-se apeado ao pé da árvore indicada, o Cabeleira peou o cavalo em uma baixa que formava a margem, da qual não havia desaparecido de todo a grama nascida com o último inverno; e sem demora desceu ao poço contíguo para apanhar água em uma casca de sapucaia que descobriu por acaso entre umas folhas secas.
Notou que quanto mais se estendia a depressão do terreno para o lado do rio, mais aumentava a verdura que a revestia. Conheceu por fim que havia dado em uma vazante.
Semelhante achado pareceu-lhe coisa extraordinária naquelas alturas ínvias e desertas. Mas não se tinha enganado; a região que se lhe oferecia à vista não era de todo desabitada; ali brilhavam vestígios da mão do homem; ali havia o cunho de um esforço de que ele nunca fora capaz, o cunho do trabalho.
Era pequena a plantação, mas tida, ao que parecia, em alta conta por quem quer lhe consagrava os seus cuidados e vigilância.
Estava verde, limpa, matizada de frutos. Com os ramos do jerimunzeiro se confundiam as folhas lanceoladas do batateiral. Ao lado da melancia lourejava o melão, de que recendia suave cheiro; e dentre o entretecido de verdura formado pelo conjunto dos ramos rasteiros em que se achavam presos estes deliciosos presentes da terra, levantavam-se ao céu, de covas eqüidistantes, os pés de milho com seus pendões inclinados e suas corpulentas espigas, em torno das quais se esparziam os fulvos cabelos que costumavam adornar estes abençoados frutos.
É indescritível o prazer que sentiu o bandido ao deparar com aquele tesouro.
Tinha a seu alcance com que matar a fome, cujos efeitos começava a sentir, tinha um presente que oferecer à sua companheira, extenuada de fadiga.
Separar do pé com a faca, duas melancias, e quebrar algumas espigas foram operações que o Cabeleira praticou em menos de um minuto. O estalar do milho despertou um rapazito, que, achando-se ali para enxotar as maracanãs que destrõem os milharais, adormecera ao calor do meio dia na extremidade da vazante debaixo de uma latada formada pelos ramos de um pé de maracujá que, com a frescura do solo, se mostrava verdejante e florido.
— Ladrão ! Ladrão ! — gritou o rapazito com valor e força superiores aos que o seu corpo e estatura prometiam.
E armado com um pau, investiu contra o Cabeleira, que a inesperada aparição deixara um instante perplexo com parte do furto em uma mão, e a faca nua na outra.
O rapaz ganhou em poucos passos a distância que o separava do bandido, e descarregou sobre a cabeça deste, sem dizer tir-te nem guar-te, o pau que trazia alçado. O Cabeleira em represália atirou-lhe um golpe com o intuito de cortá-lo de meio a meio, intuito que foi burlado por Luísa que-lhe havia pegado do braço a tempo de evitar a desgraça iminente.
— Cabeleira ! Queria fazer uma morte ainda ? Meu Deus, abrandai-lhe o coração.
— Luisinha, eu não sei bem o que queria fazer — disse o moço caindo em si. — Mas este dorminhoco deu-me com o seu graveto como se eu fosse algum pinto.
— Quero-lhe muito bem, meu amor — acrescentou a moça com a profunda ternura que, quando verdadeiramente quer e sente o que quer, a mulher sabe ter no olhar, no gesto, na voz. — Mas quando o vejo como agora de arma em punho, ameaçando com certeiros quais são os seus, a vida de alguém, sinto tão grande dor, que você não pode compreender o meu padecimento.
Cabeleira inclinou os olhos ao chão, meteu a faca na bainha e deu a andar com os frutos debaixo do braço.
— Para que traz você estes frutos consigo ? — perguntou-lhe Luísa. — Eles não nos pertencem, e não podemos apossarmos, contra a vontade de seu dono, daquilo que não é nosso.
— Que vamos comer ? — perguntou muito naturalmente o mancebo.
— Comeremos o que nos der o mato. Deus está em toda parte, e não se esquece dos que invocam a sua proteção.
Cabeleira submisso e humildemente depôs as frutas no chão sem mais reparo. Quanto ao rapazito, guarda da vazante, havia desaparecido desde que ouvira pronunciar o nome, que de sul a norte significava, para grandes e pequenos, roubo e atrocidade.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.