Por Bernardo Guimarães (1872)
O sol que surgia dardejava seus raios horizontais por entre as copas das árvores seculares, restos da antiga floresta, que aqui e acolá projetavam sombras gigantescas pelas ribanceiras do rio, quando Elias montou a cavalo, e dirigiu-se a seu destino, absorto em seus tristes pensamentos, e procurando fortalecer-se na nobre e generosa resolução que acabava de tomar. Estaria pouco mais ou menos no meio do caminho, ladeado de distância em distância de pequenos ranchos, que costeando a margem do ribeirão seguia para o Comércio da Cachoeira, quando em certa altura ouviu uns gemidos abafados que pareciam sair de dentro de uma miserável choupana, quase escondida entre a capoeira, que se avistava a uns cinqüenta passos da estrada, quase à beira do rio. Parou e escutou por alguns instantes; os gemidos continuaram. Não podia haver dúvida; era algum desgraçado que sofria, e morria talvez à míngua e à fome naquele miserável casebre, ou também quem sabe? ali gemia a vítima de algum horroroso atentado, desses que tão comumente se perpetravam na Bagagem, naquela época. Elias não era homem de ânimo a presenciar o sofrimento de quem quer que fosse, sem procurar socorre-lo de qualquer maneira.
Dirigiu-se à choupana, apeou-se e bateu à porta.
XVI – O MORIBUNDO
Apareceu daí a um instante, na única janelinha que havia na casa, a cara encarquilhada de uma velhinha de aspecto repulsivo e sinistro: seus olhos grandes e redondos, o olhar frouxo mas lôbrego e carregado, o nariz adunco e largo sobreposto às faces engelhadas, cabelo curto e eriçado em forma de topete davam-lhe a aparência de uma verdadeira coruja, aninhada naquele pardieiro. Elias quase teve medo, e se não fosse dia claro teria acreditado na existência de bruxas.
- O que quer, meu senhor? . . . bradou, ou antes guinchou a velha com voz esganiçada.
- Desejava ver a pessoa que está aí dentro a gemer. Parece que sofre bastante; talvez eu lhe possa ser útil, e dar alguns alívios.
- Não se aflija, meu patrão: é um pobre velho que está entrevado ali no fundo de uma cama. Há muito tempo que está assim, sem que ninguém possa lhe dar alívio, coitado! . . . dali só para a cova. Se quer dar a ele alguma esmola, podeme entregar, e Deus Nosso Senhor lhe dará o pago. . .
-mas eu mesmo desejava vê-lo; também entendo alguma coisa de medicina, e talvez lhe possa ensinar algum curativo com que se dê bem. . .
-mas o médico que trata dele não quer que receba visita nenhuma, nem fale com ninguém; por isso Vmcê. Não repare, eu não lhe posso abrir a porta. . .
Não tenha cuidado; eu atalharei toda a conversa, e, se for necessário, não lhe darei mesmo uma só palavra. Quero só vê-lo um instante e saio imediatamente.
- Não, senhor; perdão; não pode ser. Ele é muito palrador, e vendo gente começa a tagarelar de modo que nunca mais tem fim; e fica cada vez a pior, a pior; e eu é que o estou agüentando, e isso não me faz conta.
-mas já lhe disse que se ele falar, me retirarei logo, replicou com vivacidade Elias, a quem já começavam a impacientar as negativas da velha, e que mesmo já começava a desconfiar que havia ali algum mistério que a maldita velha estava com medo que ele fosse descobrir. - Em nome do céu, abra essa porta.
- Não, senhor; já lhe disse; não pode ser.
- Ah! senhor! bradou de dentro a voz rouca e alquebrada do enfermo. Quem quer que está aí, pelo amor de Deus, entre cá dentro.
- Está ouvindo? disse Elias, ele me chama; abra essa porta.
- Não, não pode ser; quantas vezes quer que lhe diga?
E depois voltando-se para dentro e abrindo extraordinariamente os enormes olhos, como rã esbordoada, bradou para o enfermo.
- Ah! velhote de uma figa! não pode calar essa boca? . . . é assim que pretende sarar? . . . parece uma criancinha! . . . pois olhe: se continuar assim, não sei se estarei mais para o aturar. . . se quer conversar com todo o mundo que passa, mando pôr sua cama lá no meio da estrada, e eles que o agüentem.
- Quem está aí na porta entre cá por caridade; não faça caso do que ela está dizendo; por caridade! . . . pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! entre. . . entre. . . quanto antes.
- Ai! ai! ai! . . . ululou a velha harpia. Bendito Deus! ainda de mais a mais variado do juízo!
-mulher infernal, bradou Elias com força, abre-me já, se não queres que arrebente a porta.
- Arrebentar! como está bonito o moço! tomara ver isso! . . . porventura a casa é sua? . . . moço, vá andando seu caminho, e não esteja tentando a Deus! já lhe disse que não abro.
E dizendo isto bateu com a janela, e trancou- ª
Elias entendeu que não devia mais esperdiçar palavras com aquela megera. meteu o ombro à franzina porta que estava apenas trancada por uma fraca tramela, e que cedeu logo ao primeiro empurrão.
-misericórdia! guinchou a velha, este homem tem o diabo no corpo! Misericórdia! aqui d’el- rei!
Elias afastou com um empurrão a velha que se apresentara por diante querendo-lhe estorvar a entrada e fazendo uma berraria dos diabos; e foi-se dirigindo rapidamente para a miserável alcova, antes antro, em que jazia o desgraçado velho. Em um girau de pau roliço, desses cujos pés são forquilhas cravadas no chão, naquela espelunca escura e úmida, sobre um imundo colchão de palha, estava estirado um velho caboclo, esquálido e macilento, arquejando
convulsivamente e entregue aos mais dolorosos sofrimentos. Espetada à parede, junto à cabeceira, uma negra candeia de ferro lhe dava sobre o rosto bronzeado um lúgubre clarão amarelento.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.