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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Entre os companheiros de Inimá, que com ele se tinham salvado da desastrosa derrota de sua expedição, havia um irmão de Guaraciaba, que sua mãe a gentil e graciosa Naumá tinha tido do esbelto e robusto Andiroba antes que Oriçanga a recebesse como esposa em sua taba. Anhambira, este era o seu nome, era um jovem guerreiro igual em idade a Inimá e mui semelhante a ele, quer nas feições do rosto, quer na estatura e na galhardia do porte; desde a infância ligaram-se um ao outro pelos laços da mais estreita amizade; eram sempre companheiros inseparáveis em todos os jogos e em todos os trabalhos e empresas, e ao vê-los assim tão semelhantes um ao outro julgar-se-ia serem dois irmãos gêmeos. Anhambira seguira a seu amigo nessa expedição, que teve tão deplorável resultado, e já Guaraciaba tinha vertido amargo pranto sobre a sorte de seu irmão, julgando-o morto ou perdido como o resto de seus companheiros. Os outros guerreiros, que com Inimá se achavam na floresta, eram também amigos dedicados, fiéis a seu chefe até a última extremidade, e prontos a executar pontualmente as suas ordens, quaisquer que elas fossem.

Anhambira, posto que como amigo de Inimá fosse infenso a Itajiba, amava muito a sua irmã, e logo em sua chegada tinha pedido a seu chefe e amigo que o deixasse ir às tabas vê-la e abraçá-la; mas Inimá jeitosamente se opôs a isto, e o dissuadiu fazendo-lhe ver que Itajiba era cruel e suspeitoso, e que seu aparecimento nas tabas poderia ser funesto; dizia demais, a seu amigo, que não poderia passar um instante sem a sua companhia, que era o único alívio e conforto que ainda lhe restava na horrível solidão em que se achava; que no dia do noivado poderia ele ir ver sua irmã e lhe ficava livre voltar ou não para sua companhia. Anhambira, que tinha coração leal e singelo, e não querendo contrariar a seu amigo em ocasião tão penível e cruel, acreditou em suas palavras e esperou.

De feito, como chegasse o terceiro dia da festas nupciais, ao pôr-do-sol Inimá disse ao seu amigo:

— Anhambira, eis aí chegado o dia em que Itajiba vai ver coroados todos os seus desejos recebendo por companheira tua formosa irmã, e em que eu, amaldiçoado pelos céus e repelido pelos homens, irei longe daqui pôr termo a esta odiosa existência. Vai, meu amigo, vai ver e abraçar tua bela e feliz irmã e esse teu novo irmão que não conheces. Possas tu viver junto deles vida longa e feliz, e não te esquecer jamais do teu infortunado amigo, que ralado de amarguras, abandonado pelo céu e pelos homens, só poderá encontrar repouso no seio da morte. Vai, Anhambira, e recebe o meu último e doloroso adeus!

Anhambira respondeu-lhe chorando:

— Quão mal me conheces tu, Inimá, a mim, que sempre te amei e te acompanhei em todos os trances da vida! como acreditas que eu possa abandonar-te hoje, quando mais precisas de um amigo leal e dedicado que te alente e console no infortúnio em que jazes?... irei somente ver minha irmã e dizer-lhe o último adeus, pois não poderei viver em companhia desse estrangeiro teu rival e teu algoz, e voltarei a teu lado para acompanhar-te sempre e a toda parte que fores. Adeus, que breve estarei de novo contigo.

Nobre e leal mancebo! mal sabia ele que horríveis e sinistros pensamentos volviam em sua mente obcecada pelo ódio àquele a quem votava tão sincera e estremosa amizade! Anhambira saiu acompanhado de outro guerreiro, que Inimá mandara acompanhá-lo; depois de terem atravessado grande extensão de mata chegaram às tabas, e costeando o rio passaram pelas fogueiras através de uma imensa multidão, que se entregava com entusiasmo a toda a espécie de divertimentos, até que chegaram a uma pequena taba retirada a pouco a distância da de Oriçanga, meio escondida entre moitas de coqueiros e outros arvoredos, e onde não chegava senão mui frouxamente o clarão e o ruído das festas.

— Espera aqui, diz o companheiro de Anhambira ao entrarem na taba; eu vou chamar Guaraciaba, e dentro em um momento ela aqui estará contigo.

— Como! volve-lhe Anhambira com surpresa, por que razão não poderei eu mesmo ir lá vê-la?

— Tu não vês, replica-lhe o guerreiro, que o teu aparecimento inesperado na taba do cacique iria excitar as suspeitas do desconfiado e sombrio Itajiba, que não te conhece e te tomaria pelo próprio Inimá? amanhã poderás, se quiseres, pendurar tranqüilamente a tua rede na taba de tua irmã, e passar teus dias ao lado dela; mas por hoje é preciso cautela ainda.

Anhambira com a ingenuidade de uma alma pura acreditou, e assentado em um leito de peles esperou refletindo consigo:

— Melhor é mesmo esperá-la aqui; não serei obrigado a ver esse homem orgulhoso e fatal, que é a causa da ruína do meu amigo.

(continua...)

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