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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Reparem, meus senhores, neste lepidóptero com os olhos cuidadosos da ciência. Tem quatro pés caminhantes: as antenas de terminação comprida e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que a cabeça e escamosos; tromba toda branca e lábio quase nulo. Não perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó, vale tanto como uma pena de pássaro, e a comparação é perfeita, visto como cada uma destas escamas, à semelhança das penas, é atravessada por uma traquéia, por onde circula o ar. Oh! que achado! prosseguiu ele. Que triunfo para mim! A Sociedade Entomológica de Magdeburgo há de ficar muito orgulhosa... Sem dúvida alguma farão uma sessão solene, extraordinária. Mein Gott!... Estou que não posso de alegria... Também, daqui a três ou quatro dias, vou-me embora desta casa... ainda que cheio de saudades. . .

— Deveras? atalhou Pereira, vai partir?

—Sim, senhor. O meu itinerário é para Camapuã; depois. vou a Miranda e talvez Niac... Hei de subir até ao Coxim e ai, ou embarco para Cuiabá no Rio Taquari, ou sigo por terra pelo Pequiri.

—E o senhor volta para sua pátria?

—Boa dúvida!... Daqui a ano e meio, pretendo apresentar a minha coleção toda arranjada à Sociedade Entomológica...

—Homem, observou Pereira com intenção que seu hóspede não podia nem de leve perceber, eu quisera já estar nesse dia. Daqui a ano e meio, que voltas terá dado o mundo?...

—Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do Zodíaco.

—Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia.

—Quando ele chegar, continuou o alemão com sinceridade e um tanto comovido, hei de lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi... nos sertões do Império... e hei de dizer... bem alto... que os brasileiros:.. são felizes porque são morigerados e têm muito boa Índole hospitaleiros como ninguém.

—Acrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com todo o cuidado a honra de suas famílias.

Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra.

—E zelam com todo o cuidado a honra de suas famílias.

—Multo bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Senhor terá dito uma verdade.

CAPÍTULO XXII

MEYER PARTE

Adeus, pois amigos bela companhia! Aos lares distantes cada qual de nós, por caminhos diversos. deve um dia chegar.

(Catulo, Epigrama XLVI)

Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cirino por enfermos de muitas léguas em torno. Tão freqüentes e teimosos eram os casos de sezões ou maleitas que a porção de sulfato de quinina que trouxera em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse medicamento sem tanta confiança, porém, por plantas verdes do campo ou ervas secas, fornecidas por uns bolivianos que encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de ia Sierra em peregrinarão pelo interior do Brasil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho, nem aqueles resquícios de conhecimentos terapêuticos que ostentava o nosso doutor.

Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns acusavam moléstias cujas qualificações eram complicadas e estrambóticas; assim declaravam-se salteados de engasgue, espinhela caída, mal de encalhe, tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas, eripelas, até assombração e mau-olhado.

Quem se queixava de engasgues era o capataz de uma fazenda minada do Vau, distante umas boas cinqüenta léguas.

—Senhor doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de sofrimentos. Estou com este mal vai fazer cinco anos no São João por sinal que me veio com uma grande dor na boca do estômago. Vezes há que não posso engolir nada, sem beber muitos galos de água, de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para outro.

—E a dor, perguntou Cirino, ainda a sente?

— Toda a vida, respondeu o capataz... O que me aflige mais é que há comidas então que não me passam a goela... É um fastio dos meus pecados... Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que me está a subir e descer pela garganta...

Receitou o médico umas doses de erva-de-marinheiro como emético, e fez mais algumas prescrições que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.

No estado de perturbação moral em que se achava o jovem facultativo, natural e que fosse uma coisa por outra; mais importante porém, era a fé que suas indicações incutiam a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente precioso que o espírito ministra aos ingentes esforços da natureza na sua constante lota contra os princípios mórbidos.

O doente de espinhela caída acusava um peso muito forte e perene no peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas a mesma altura.

Prescreveu-lhe Cirino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão; verbicrata. engolir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.

O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguém precisava de quem nele cuidasse, pelo menos da alma.

Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em véspera de deixá-lo a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que havia laborado, como também a clínica quase esgotada, aconselhando-lhe a conveniência de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida jornada.

Tudo isto, e o amor a aumentar, a tirar-lhe todo o sossego, a consumi-lo a fogo lento...

(continua...)

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