Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Após a passagem do corpo de caçadores, cada vez mais considerável se tornara o ajuntamento à beira-rio Todos os movimentos daquele batalhão, na outra margem, acompanhados pelas nossas vistas alongadas, nós os comentávamos. De tempos a tempos precipitava-se alguém a nado ou arriscava passar em pelota para procurar reunir-se aos camaradas, apesar das ordens em contrário. A morte de vários soldados, afogados, mostrara a urgência de se manter, mais rigorosa ainda, a proibição. Não houve, entretanto, ameaças nem objeções capazes de dissuadir um capitão do 20.° que, todo vestido, entrou numa pelota, conduzida por dois nadadores Cria poder com eles contar, mas, no meio do rio, como as forças lhes faltassem, entregaram-no à correnteza Vimo-lo envidar longos esforços para se manter à tona e depois submergir-se, pouco a pouco a desaparecer, com gritos de desespero a que, à míngua de socorro, respondiam os da multidão reunida no lugar de onde partira.

Pouco depois um nadador, chegando da margem

Era o receio infundado porém; pois é coincidência comum a todos os caudais — depois de demorados nos transvasamentos pela própria expansão — adquirirem, quando voltam ao leito, maior velocidade, embora transitória, que progressivamente diminui, se não renovam as chuvas, até o momento em que as águas voltam ao regime normal.

Neste ínterim, e por causa da afluência dos soldados à beira-rio, foi o nosso pouso ficando deserto. Em busca de lugar fresco haviam os doentes transposto algumas braças de um pântano que nos envolvia o acampamento e corrido mais longe arrumar-se num bosque, bastante espesso, de ambos os lados de uma estrada aberta que era a de Miranda. Haviam-nos seguido parentes e amigos e ali todos se instalavam, como para ficar. Já vários soldados se tinham metido no mato, a procura de caca, ouvindo-se os tiros que ao longe disparavam. Supusemos a princípio fosse o inimigo, que não sabíamos onde parava. Desaparecera, ou para preservar do contágio da epidemia que conosco arrastávamos.

Neste mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desvalidas ainda que os demais doentes, mais desprovidas de recursos e, por motivo de sua natural fraqueza, mais ferreteadas pelos estigmas da miséria absoluta. Quase não existia mais entre nós a autoridade. Fora, desde o começo, frouxa às mãos do coronel Camisão, sempre que se tornara precisa e iniciativa de uma decisão ou proceder a uma escolha entre diversos alvitres e alternativas. Tornara-se, é certo, mais firme quando os reveses nos acabrunhavam, uns sobre outros; para o fim atingira o heroísmo quando, com uma abnegação, cujo esforço indubitavelmente lhe arrancara a vida, abandonara os enfermos para a salvação da coluna. Desde, porém, que a cólera o atacara ia tudo ao deus-dará; sentíamos todos quanto nos era indispensável novo chefe.

A 29 tornou-se evidente que o Coronel morreria. Por vezes, vencera o sofrimento aquela dignidade que tanto zelara: "Dizem que a água mata, exclamava, dêem-ma; quero morrer!" Caiu num estado de torpor e sonolência e o corpo cobriu-se-lhe de manchas violáceas sete e meia fez supremo esforço; levantou-se do couro em que estava deitado, apoiou-se sobre o capitão Lago perguntou-lhe onde estava a coluna, repetindo ainda que a salvara. Depois, voltando os olhos, já vidrados, para o seu ordenança, exclamou em tom de comando: "Salvador! dê-me a espada e o revólver". Procurou afivelar o talim e exatamente nesta ocasião deixou-se rolar no chão murmurando: "Façam seguir as forças, que vou descansar". E assim expirou.

A alguns passos dali, numa barraca a todos os ventos aberta, achava-se o tenente-coronel Juvêncio. Recobrara um fio de voz e livrara-se da horrível tortura das caimbras, queixando-se, todavia, de forte dor no fígado. O tenente Catão, a quem do melhor modo auxiliávamos fazia-Ihe continuamente aplicações novas, que, contudo não o aliviavam. Tinha, constantemente, os nossos nomes nos lábios para nos recomendar a família. Ao meio-dia acalmou-se, caiu numa letargia entrecortada de sobressaltos, e, às três horas, expirou depois de nos entregar, para a mulher e os filhos, uma bolsinha de couro contendo algumas economias de campanha.

Numa cova aberta, sob grande árvore, no meio da mata, enterrou-se o Coronel com o seu uniforme e insígnias. Em outra cova, imediata, e à direita, foi o corpo do tenente-coronel Juvêncio colocado pelos seus companheiros da comissão de engenheiros e alguns oficiais do corpo de artilharia. Jamais se nos varrerá da memória esta lúgubre cerimônia a que a escuridão da noite e da mata ainda mais soturna tornavam. Eram quase sete horas quando de lá voltamos. Descansam os nossos infelizes chefes à esquerda do Miranda, a alguma distancia da entrada do bosque e em altura correspondente a estancia do Jardim, à margem direita. Se lhes não profanarem os túmulos é de esperar que, um dia ou outro alguma cruz de material duradouro, com uma inscrição, aponte à memória dos brasileiros o lugar que recebeu os despojos destas nobres vítimas do dever (1)

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4142434445...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →