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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Não obstante a promessa feita à Sinhazinha com grandes veras, Maurícia julgou prudente espaçar a sua ida ao Recife. A menina, cansada já de contar as semanas, os dias, as horas, começava a descrer da amizade e benevolência de Maurícia, quando, por uma tarde de novembro, a carruagem de Albuquerque parou no portão do sítio de Martins, e dela saltou a mãe de Virgínia, desacompanhada desta. Sinhazinha criou alma nova; correu à casa de Eugênia, abraçou-se com Maurícia e umedeceu-lhe o colo com lágrimas de alegria. Eram passados dois meses depois da sua estada no engenho.

No dia seguinte Martins procurou Ângelo no escritório. Achou aí um sujeito de quarenta e cinco anos, a quem Ângelo dava um tanto para abrir todos os dias a casa, varrer a sala, espanar os móveis e os livros, receber e entregar os autos. Chamava-se Jacinto.

Notando Martins que, sendo onze horas da manhã, Ângelo não estivesse ainda no escritório, o Jacinto respondeu:

— Nem virá tão cedo.

— Demora-se muito?

— Só estará aqui por volta das duas horas.

— Mas isto não acontece todos os dias - advertiu Martins.

— Todos os dias - tornou Jacinto.

— Até agora, quero dizer, há três meses atrás não era assim. Nunca deixei e encontrá-lo no escritório depois das nove e meia.

— Já lá se foi esse tempo. Agora, o doutor vive mais para as atrizes e os espetáculos que para as partes e os autos,

Martins, bom amigo, não quis alentar o diálogo sobre assunto tão escabroso. Demais, ele nada ignorava do que lhe dizia o ajudante, ou antes o servente de Ângelo. O Jacinto, porém, que tinha o vezo de dar com a língua nos dentes, prosseguiu sem se importar com a reserva de Martins.

— Isto não vai bem. O doutor não despacha os autos, e não ouve as poucas partes que ainda o procuram. Se o senhor se demorar algum tempo, há de ver protocolistas virem buscar os papéis retardados, e voltarem ainda desta vez sem eles. O doutor está precisando de conselhos. Se o senhor é seu amigo, não deixe de dá-los.

— Voltarei às duas horas - tornou Martins. Se, na minha ausência, Ângelo aparecer, diga-lhe que espere por mim.

— Não tenha susto. O senhor há de vir e de esperar ainda por ele.

Martins desceu, sentindo longes de tristeza na alma. Era um homem que devia ao menos gratidão a Ângelo que fazia dele tão boas ausências.

No pé da escada um oficial de justiça estava conversando com um procurador de causas. O primeiro dizia que Ângelo lhe devia ainda uma dezena de intimações atrasadas; o segundo viera cobrar o restante de um débito, proveniente de trabalhos que o jovem bacharel o encarregara fora da cidade. O procurador dizia ao oficial:

— O dinheiro que o homem apanha é pouco para comédias, presentes, passeio a carro e outras loucuras.

O oficial respondeu ao procurador:

— Um dia destes tive em minhas mãos um requerimento chamando-o a

conciliação por trezentos mil-réis que ele deve ao Pereira, que tem loja de fazendas na Rua do Queimado. Não quis encarregar-me da citação para o doutor não dizer que, se ele não me devesse, eu não me animaria a citá-lo.

Ainda quando Martins não formasse do estado de Ângelo o juízo mais aproximado, estes esboços feitos a carvão, como os desenhos obscenos dos moleques nas paredes, foram mais que bastantes para que de tal estado não lhe restasse a menor dúvida.

E, dando o devido desconto ao que ouvira, encaminhou-se para o ponto onde exercia a sua indústria, e aí se deixou ficar até às duas horas; trinta minutos depois, entrou novamente no escritório.

— Estás mal comigo, Ângelo? — perguntou ao entrar.

— É a mim que me cabe fazer-te esta pergunta.

— Estive ontem à noite em tua casa. Tinhas ido ao teatro. Tomei chá com tua mãe e tuas tias. Vi teus irmãos. Um deles pareceu-me estar já perdendo ao ano.

— Conheces algum mestre brando, benévolo e paciente? Não quero expor meus irmãos ao desamor de certos professores que tornam odioso aos meninos o mister de aprender.

— Tenho um primo que é um professor exemplar. Falar-lhe-ei amanhã. sobre a entrada de teu irmão na sua escola; e, na semana vindoura, pode o menino começar o trabalho. Mas - mudando de assunto - qual a razão do teu afastamento de minha casa. Lá ninguém tem ofendeu.

— Não tenho aparecido por estar muito sobrecarregado com trabalhos; — Forenses?

— Na maior parte.

— Queria-me parecer, ao entrar aqui, o contrário do que estás dizendo. Há três para quatro meses que não venho ao teu escritório, e em tão curto espaço de tempo noto agora grande diferença. Então, via-se o escritório ordinariamente cheio de clientes; hoje, vejo-o deserto. Somos três os que estão aqui - eu, tu, e ali o Sr. Jacinto, matando moscas. Como vais com o teu jornal.

— Agoniza. Muitos dos assinantes não renovaram as assinaturas e ver-me-ei na contingência, se não entrarem novos que compensem os que não tornaram, de suspender a publicação.

— Deves à tipografia?

— Estou num pequeno atraso.

— Entretanto, há quatro meses era próspero o estado do jornal. Não se deverá atribuir o resfriamento dos assinantes à publicação quase exaustiva de traduções e transcrições, em vez de artigos originais, em que até certo tempo te mostraste tão fecundo?

— Talvez. De fato, não tenho tido tempo de escrever como já escrevi. Ando a modo de preocupado.

— Andas; e é sobre isto que venho tomar-te alguns minutos. — Senta-te aqui.

(continua...)

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