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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Não tendo porém encontrado o Cabeleira, mas somente ladrões de cavalos e negros fugidos, recolheu-se à vila em paz com' a sua consciência, é verdade, mas descontente de não ver coroados dos brilhantes sucessos, que esperava, os seus esforços.

Não lhe custou pouco renunciar ao empenho de pôr nas cordas, como dizia ele, o maior facinoroso que pisava em Pernambuco.

Era presunção geral que a ele caberia, mais dia menos dia, a glória de prender o Cabeleira que dava mostras de consagrar particular estimação às matas de Goitá, lugar em que nascera e que, posto pertencia neste tempo a Santo Antão, ficava mais próximo do engenho Petribu que era propriedade daquele capitão-mor; e pertencia então a Goiana.

Mas o boato falso que correu a respeito da prisão do bandido pelo capitão-mor de Santo Antão, desvaneceu toda a esperança que Cristóvão de Holanda alimentava a semelhante respeito.

E que era feito do Cabeleira ?

Por onde andava ele quando seu nome corria por milhares de bocas um milhão de vezes no dia; quando sua imagem enchia o pensamento de um povo que o considerava um flagelo não menos fatal do que a peste e a fome que o reduziam à dor extrema?

Dizia-se que o Cabeleira, vendo-se perseguido tão estendidamente, tinha rompido, sem deixar traços da sua passagem como costumava, o cordão sanitário, e se havia internado nos sertões de Cimbres, ou de Pajeú, donde era impossível desentranhá-lo por serem então, como são ainda hoje, quase de todo desconhecidos esses medonhos sertões.

Dizia-se que, tomando para o norte, atravessara o Capibaribe e ganhara a ribeira do Pilar do Taipu, na Paraíba, a qual muitas vezes percorrera, tendo-a deixado coberta de cadáveres e ruínas.

Correram estes boatos e outros mais que com estes se pareciam.

O certo porém é que ninguém sabia do Cabeleira, ente incompreensível que surgia de súbito da terra sem ser esperado, e pela mesma forma desaparecia, como se metesse por ela adentro, por partes do demo, segundo alguns acreditavam, ou por ter em toda a parte parciais, ou protetores, segundo pensavam outros que se diziam melhor informados do que os primeiros.

CAPÍTULO XIII

O Cabeleira entretanto atravessava matos, riachos e tabuleiros por novos caminhos que, infatigável e ousado, ia abrindo, em direitura ao lugar do seu nascimento.

Sentia-se atraído para esse lugar por uma saudade infinda, por uma confiança enganosa e fatal.

Parecia-lhe que ninguém, nem a justiça dos homens nem a de Deus, na qual desde os mais verdes anos o tinham ensinado a não acreditar, teriam poder para arrancá-lo desses sombrios e protetores esconderijos, dessas grutas insondáveis, perpetuamente abertas às onças e a ele, perpetuamente fechadas ao restante dos animais e dos homens que não se animavam a transpor-lhes o escuro limiar com receio de ficarem sepultados para sempre em tão medonhos sarcófagos.

Tendo-se afastado do pé da mata onde haviam sido vencidos e capturados em seus redutos os outros malfeitores, descreveu uma oblíqua de cerca de uma légua no rumo do ocidente e desceu depois a uma distancia donde pudesse ter debaixo das vistas o Tapacurá, que lhe servia de guia através do sertão.

Estava em pleno deserto. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais e profundas gargantas de serra inacessíveis, sem habitação, sem viva alma; do outro lado do rio um espinhal basto, alguns serrotes escalvados, catingas sem fim, brejos combustos do calor do sol completavam o largo amparo que lhe abria em seu seio a natureza.

Com a seca abrasadora essa região, que nunca fora amena, ainda na forca do verde, estava inóspita, árida, cruel.

Via-se a espaços um pé de xiquexique perdido nos alvos tabuleiros, ou entre serros alcantilados, e junto do rio uma ingazeira com a folhagem coberta de samambaia, um juazeiro solitário e sem fruto.

Seria meio dia.

Bem que o Cabeleira pelo longo hábito de jornadear por dentro dos matos, e pelo cuidado que tinha de escusar importunos encontros, só à sombra das árvores fazia a travessa do deserto; contudo entraram ele e Luísa a experimentar o cansaço que o excessivo calor gera máxime durante uma viagem de muitas horas.

Luísa mal se podia ter sobre o cavalo, que nem ao menos oferecia o cômodo de uma regular montaria. A marcha do pobre animal tanto mais penosa tornava para os fugitivos quanto as forças lhe iam faltando em conseqüência do longo jejum, e da puxada viagem.

Desde muito tempo afeito a viver no deserto, tinha o Cabeleira adquirido uma virtude — sóbria, obra de longas privações, e fonte de admirável heroísmo; não assim Luísa, pobre menina, criada com grande afeto, e maternal solicitude.

Não tivera ela uma existência de gozos e grandezas, mas nunca lhe faltaram os cômodos que assegura a vida regrada da família, que, embora pobre, encontra no trabalho e na economia recursos folgados para todas as necessidades até alguns confortos. A sombra de um jatobá o Cabeleira parou, e, lançando o olhar por toda a natureza, que os abraçava como a imensidade abraça um ponto:

— Estamos fora de perigo — disse para Luísa.

Esta chorava em silêncio. Em seu rosto abatido, mas sempre belo transparecia a mágoa profunda que lhe minava o coração, onde se refletia a viva lembrança das cenas da noite anterior.

(continua...)

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