Por Bernardo Guimarães (1872)
— Para que semelhante embuste, meu Deus! — murmurava consigo. — Que idéia infernal de sacrificar o destino de duas pessoas por meio de uma mentira!... Se não fosse tal mentira, se me constasse — como era verdade — que Margarida fiel ao seu amor se finava de saudades por mim, decerto eu nunca teria tomado esta veste sagrada, que hoje me queima as carnes como a túnica de Nesso. A impressão de um sonho, de um sermão, se teria esvaecido como fumaça, como tantas outras que não puderam desarraigar de meu coração uma paixão, que com ele nasceu, e que com ele... desgraçado de mim!... sim, mil vezes desgraçado .... que com ele terá de morrer... Margarida!... pobre Margarida!... tens tanto de boa, pura e leal, como de formosa... e tanto de formosa, como de infeliz!... nem nos mais exaltados sonhos de fantasia, eu fazia idéia justa do tesouro que eu louco troquei por uma coroa de martírio, que não tenho força para suportar!...
Eugênio estorcia-se em febril agitação, e quase delirava. A paixão, que julgava já não ser mais que uma triste recordação, uma dolorosa desilusão do passado, não se tinha extinguido debaixo das vestes sagradas do sacerdote. Era essa paixão como o arbusto, que a geada despojou das folhas, e mirrou-lhe os galhos, e parece estar morto para sempre, entanto, que o tronco e a raiz, cheios de seiva e vitalidade estão prontos a germinar com novo viço e galhardia ao primeiro bafejo da primavera.
Ou antes era como a fogueira, cujas chamas uma chuva glacial havia apagado, ficando intactos todos os materiais, que já secos e quase calcinados, esperam apenas o contato de uma centelha para de novo se inflamarem com fúria irresistível. A vista de Margarida resplandecente de beleza e dos mais voluptuosos encantos do corpo, a certeza de sua fidelidade, aquele ligeiro roçar de lábios, filtro fatal, que lhe coou nas veias o delicioso veneno da voluptuosidade, foram centelhas vivas, que em um momento puseram em horrível conflagração a paixão ardente, há tanto adormecida. Uma nova tormenta mais pavorosa que as precedentes ameaçava fazer soçobrar a virtude do jovem cenobita, levando de rojo o frágil dique a tanto custo erguido pelo ascetismo na solidão do claustro.
Não era já um reflexo da pura afeição da infância, desse sereno amanhecer do amor envolto nos véus cândidos da inocência. Não era também a paixão juvenil com suas recordações saudosas, com seus sonhos dourados e ardentes aspirações de felicidade. Era tudo isso, e mais alguma coisa ainda. Eram os instintos sensuais longo tempo sopitados, que em uma organização vivaz e vigorosa despertavam com império irresistível. Era uma sede voraz de gozos e volúpias, era uma febre, era um delírio. O demônio da luxúria acendera nas chamas do inferno seu facho furibundo e com ele se aprazia em requeimar o sangue do mísero sacerdote.
Entrando em casa, Eugênio não quis ver pessoa alguma a fim de esconder a perturbação que o agitava, e como a noite já ia avançada, recolheu-se sozinho ao seu aposento.
A noite passou-a entregue às mais horríveis tribulações. Ora rezando com fervor, pedia aos céus forças para afrontar o embate da terrível tentação, que o assaltava, ora desalentado entregando-se ao delírio da paixão, chorava, rugia, blasfemava.
No dia seguinte perguntando-lhe seu pai quem era, e como ia a pessoa a quem tinha ido confessar, respondeu laconicamente:
— É uma rapariga que não conheço... não está em perigo. A moléstia dela parece-me mais cisma que outra coisa.
Como seus pais reparassem e começassem a se inquietar com a palidez e extrema excitação nervosa em que o viam, para subtrair-se a seus olhares e perguntas, apenas acabou de almoçar mal e rapidamente saiu a pretexto de dar um passeio e ver algumas pessoas conhecidas.
— O padre está muito incomodado — disse a senhora Antunes a seu marido, logo que Eugênio se retirou. — Ele sofre alguma coisa que não nos quer dizer... queira Deus!...
— Queira Deus o quê, senhora!
— A serpente, senhor!... a serpente!...
— Ora, senhora!... deixe-se dessas alusões... pois um homem, um padre... um missionário.... nem sempre a gente é criança.
— Queira Deus!... queira Deus!... — murmurou a mãe levantando-se da mesa e rezando.
O padre durante a noite tinha feito firme propósito de não voltar mais à casa de Margarida apesar da promessa, que havia feito. Antes faltar a uma simples promessa, do que expor-se ao perigo de quebrar um voto, e perder sua alma. Portanto ao sair de casa dirigiu-se para o lado oposto ao bairro, em que ela morava. No fim de contas porém, depois de ter percorrido muitas ruas e parado em muitas casas, fosse por uma fatal casualidade, ou porque o coração, mesmo sem que ele o sentisse, o ia arrastando, achou-se nas vizinhanças da habitação, de que fugia. Ao avistá-la o coração bateu-lhe uma fatal pancada.
— Ah, Margarida!... pobrezinha! quem te há de valer!... sabe Deus, se estás agonizando e vais morrer sem confissão!... é meu dever lá ir... que posso recear de uma moribunda?... é uma desumanidade, uma pusilanimidade abominável deixá-la morrer ao desamparo... o vigário não está... que remédio tenho senão socorrê-la?... ah! e quem sabe, se já não será tarde!
Pensando assim o padre se encaminhava ora vagaroso e irresoluto, ora a passos precipitados, para a casa de Margarida.
E assim, que o passarinho pousado na grimpa da árvore fascinado pela serpente, que enroscada no tronco fita nele os olhos peçonhentos, hirto de pavor e soltando pios lastimosos vem descendo do ramo em ramo até meter-se na garganta escancarada do hediondo réptil.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.