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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Está decidido! . . . minha vida tem de ser sempre uma série de provações e martírio. É essa a vontade do céu, e é escusado lutar contra o destino. Portanto ou devo me desfazer dela desde já, ou resignar-me à minha sorte. O meu dever de cristão é curvar-me e aceitar cheio de resignação o cálix da amargura. Lúcia, a sublime Lúcia, já uma vez me deu o exemplo. Ela ia resoluta e corajosa sacrificar a sua felicidade ao bem- estar de seu pai e de sua irmã. Agora o céu me impõe igual sacrifício; saibamos imita-la. Esquece-la, deixar de amá-la, ah! não; isso não cabe no possível. Mas fugirei; irei morrer longe dela, ralado de desgosto e de saudade. Se o céu não me permite possuí-la, saiba eu ao menos ser digno dela.

Elias tinha tomado uma resolução santa e sublime, digna de seu nobre coração. Ia retirar todas as promessas, protestos e juramentos que fizera a Lúcia, ia renunciar a todas as suas esperanças e imolar seu amor e sua felicidade ao bem- estar e ao futuro da família de Lúcia. O sacrifício era duro, mas a nobreza e magnanimidade daquela ação o exaltava aos olhos da própria consciência, e dava-lhe coragem bastante para leva-la a efeito. Iria ele mesmo em pessoa anunciar à sua amada a heróica resolução que tomara? . . . nos primeiros momentos foi esse o seu pensamento; iria comunicar-lhe aquele desígnio que, estava certo, lhe fora inspirado pelo céu, e que julgava de seu rigoroso dever levar a efeito. Se ela fraqueasse, se recuasse diante da enormidade do sacrifício, embora! ele não desistiria do seu propósito, lhe faria ver que seria uma ação indigna, um crime da parte dele estar servindo de eterno embaraço ao sossego e felicidade de uma família a quem ele, pobre e desprotegido da fortuna, não podia servir de auxílio algum. Lembrar-lhe- ia que há bem pouco tempo ela, de seu próprio moto, se havia votado a um sacrifício semelhante, porque o julgava de seu dever, e que esse dever reaparecia agora, talvez ainda com mais forte razão; enfim procuraria por todos os modos vigorar-lhe o coração, e com suas palavras e seu exemplo não lhe custaria inspirar à nobre e virtuosa alma de sua amante a necessária coragem e resignação.

Mas Elias, depois de refletir melhor, teve medo de dar este passo e desconfiou da força de seu próprio coração. Julgou que por meio de uma carta conseguiria o mesmo resultado, evitando uma cena dilacerante, a que nem ele nem talvez ela pudessem resistir. Pegou na pena e escreveu a Lúcia a seguinte carta:

“Querida Lúcia: O destino me persegue, o céu me abandona, e eu nunca poderei ser mais que um esforço perene para a tua felicidade e de tua família. O céu votou-me a um perpétuo martírio; forçoso me é aceita-lo e resignar-me, porque é loucura querer lutar contra a onipotência do destino. O mesmo sacrifício, a que não há muito tempo te curvaste em virtude de um dever santo, hoje de novo nos é imposto a nós ambos pelo nosso inexorável destino. Resignemo- nos, minha querida, já que é essa a vontade do céu, e pede a Deus que nos inspire a resolução e coragem necessária para não desfalecermos no cumprimento deste doloroso dever. Cumpre- nos renunciar para sempre a este amor tão puro e tão ardente que era o sonho dourado do nosso porvir, e dizer eterno adeus à esperança e à felicidade. Embora o coração se nos rasgue entre as garras da angústia, a consciência estará pura e serena; e se nos não é possível ser unidos neste mundo pelo amor, ao menos procuraremos ser dignos um do outro pela virtude. Não creias que com esta triste separação vão quebrar-se os protestos e juramentos santos que proferimos nos nossos dias de esperança; não, porque nossas almas nunca se separarão: e sempre se marão, porque o amor é uma chama que o sopro do destino não pode apagar. E, se acaso estão rotos os juramentos de nosso amor, foi a mão de Deus que os desatou, impondo- nos um dever mais alto e mais santo. Adeus, Lúcia! . . . Deus me é testemunho que, ao romper estes tão suaves laços, rompem-se-me também uma por uma todas as fibras do coração. Adeus; tem coragem para entregar teu destino a quem pode ampararte. Quanto a mim, vou para bem longe amar-te ainda e sempre, até que a dor e a saudade venham pôr termo a meus tristes dias. . . Elias. ”

Quando Elias terminou esta carta, escrita com as lágrimas dos olhos e o fel do coração, sua fronte, coberta de palidez cadavérica, apesar do fresco da manhã que girava pela sala, gotejava bagas de suor frio. Dir-se- ia um condenado que lavrava com a própria mão sua sentença de morte.

Elias mesmo quis ser o portador de sua carta até à casa de sua velha enfermeira, onde encarregaria a esta de faze-la chegar às mãos de Lúcia.

(continua...)

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