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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Mas Guida ouviu o estrupido; e voltando-se, conheceu que Ricardo a seguia e talvez a alcançasse. O chicotinho sibilou nos ares, semelhante a uma víbora que se enrosca; e o “Galgo”, alongando-se como uma flecha, devorou o espaço. 

No meio daquele turbilhão, pareceu ao moço que o talhe esbelto da menina oscilava na sela, e buscou afirmar a vista, quando um grito de terror, que se escapara fremente dos lábios de Guida, cortou os ares. 

Fincar esporas no isabel e dispará-lo com um tiro de canhão, foi para Ricardo um movimento maquinal, que ele executou antes de pensar. 

Estendia-se por diante o lanço do caminho, que fazendo, volta na extremidade corta o cabeço da montanha, e ocorre alguma distância entre dois taludes profundos para surdir já na outra encosta da serra, no ponto chamado “Mesa”. Havia nesse lugar uma longa mesa, feita de paus toscos e ensombrada por espesso bambuzal. Talvez já o tempo a tenha consumido; há três anos ainda a vi, reparada dos primeiros estragos e já outra vez carcomida. 

Quantos piqueniques não tem visto o memoroso bosque dos bambus? Que segredos não guardam em hieróglifos e datas os verdes troncos das taquaras, que a foice do trabalhador da estrada não cortou ainda para empalhar o rancho? Que banquetes dados aquela rude estiva de varas, sem toalha nem serviços de prata, mas tão opíparos de contentamento e prazer? 

Passando à direita do bambuzal, alonga-se o caminho pelo lançante da montanha, e ao cabo de algumas braças derrama-se por uma pequena esplanada, que serve como de rampa ao magnífico cenário. 

Aí, à esquerda, no socalco do caminho, está a palhoça onde pousavam os colonos, que abriram o caminho do Jardim e deram nome ao sítio. Conhecido a princípio o lugar pela simples indicação de “Rancho dos chins”, a imaginação popular enlevada pela brilhante perspectiva, de lembrança fantasiava alguma das pinturas diáfanas e aveludadas que vira debuxadas em papel de arroz; e daí o nome de “Vista chiensa”. 

 

XVII 

 

Devorou Ricardo em completa disparada o lanço do caminho, até a garganta onde sumira o “Galgo” levando a moça, talvez já de rasto. 

Ao entrar no estreito passo, ainda pôde ver de relance o vulto de Guida que passava como uma sobra, por defronte do bambuzal. Ferrando de novo as esporas em “Edgard” admirado daquela aspereza, o mancebo, sem perder a calma de que tanto precisava, fez um último esforço para alcançar o “Galgo”, cortar-lhe a dianteira, e evitar a desgraça iminente. 

Mas nenhuma esperança tinha de o conseguir; bem conhecia seu cavalo, e avaliando do isabel pela amostra, via que não era ele para bater o corredor paulista, em condições iguais, quanto mais com tal partido. 

O espaço desaparecia; e Ricardo via aproximar-se com espantosa rapidez a rampa da montanha, donde o “Galgo” ia precipitar-se arrastando a infeliz moça. 

Já não restava mais que dois trancos do galope, quando arrebatado pela mão destra da amazona, que o suspendeu no ar, o “Galgo”, rodando sobre os pés, com as mãos no ar e quase vertical, retrocedeu a disparada em que ia, e sofreado veio esbarrar-se contra “Edgard”, que seguia a vinte braços de distância. 

Com tamanha rapidez fora executada esta evolução, que antes de Ricardo voltar a si da surpresa, assomou-lhe em frente o rosto mimoso de Guida, animada pelo ardor da corrida, como pela galhardia da sua proeza eqüestre. 

- Não sou tão má cavaleira, como pensava! disse-lhe a moça desfolhando um riso fresco e argentino. 

- Não acho a menor graça nisto! retorquiu o moço com um modo sério e displicente. 

- Assustou-se?... Por uma pessoa indiferente!... Se fosse uma irmã ou alguém que lhe interessasse! 

- Não é nada agradável sair-se  a passeio, e ter-se de assistir a uma catástrofe. Se me houvesse convidado para uma representação eqüestre à borda de um precipício, eu por certo não me acharia aqui; e sobretudo não concorreria de alguma forma para estas brilhaturas. 

- Quer dizer que não me emprestava o seu cavalo? Então pensa que eu precisava dele para atirar-me da ladeira abaixo, se me viesse à fantasia experimentar essa emoção? Está enganado. Para isso preferia “Edgard”, pois com sua fleuma britânica, só obrigado por mim ele se precipitaria, mas friamente, como um cavalo que se respeita; e não desastradamente, e às cegas, como o seu “Galgo” que não tem maneiras. 

- Em todo o caso, a senhora há de permitir que tire de mim a responsabilidade que tomei, sem a avaliar, disse Ricardo em tom firme, embora envolto em um modo cortês e polido. 

- Pois não! Aí o tem, o seu mimoso! exclamou Guida saltando da sela, com extrema agilidade.

- Desculpe-me... 

- Por quê? Por exigir o que lhe pertence? Estava em seu direito. No que não estava, e eu não lhe desculpo, é na idéia que fez de mim. 

Dos lábios da moça desprendeu-se um riso sarcástico, prelúdio de sua palavra irônica: 

(continua...)

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