Por Visconde de Taunay (1871)
Irremediável se afigurava a nossa situação. Os paraguaios, em torno de nós, de observação, pareciam, como bem disse El Semanário de Assunção, anexo a este narrativa, gozar sem perigo, e tranqüilamente, do espetáculo de nosso aniquilamento pela fome e a peste. Tínhamos, com efeito, diante de nós um grande rio transbordado a nos cortar a única via de salvação.
A estação de abril a setembro não é a das águas; mas como se toda a natureza se houvesse contra nós coligado, teis, desde 13 de maio, haviam sido as chuva. radas que o Miranda intumescera de modo assustador, bramindo e espumando sobre as raízes desnudadas das árvores da barranca, não dando esperanças de permitir vau antes de alguns dias. Era, no entanto, para a Coluna, o único meio de o transpor. Não podíamos pensar em alçar uma ponte quando mal dispúnhamos de gente suficiente para o serviço das guardas: homens, no entanto, bem capazes ainda de ardor e energia num combate, mas não de contínuo trabalho manual, como este que exige uma construção de vulto. Estávamos, pois, sob os olhos dos paraguaios, segundo uma expressão destes penes, como gado encurralado e destinado ao corte.
Malgrado, entretanto, o aspecto ameaçador do rio, lançaram-se à água alguns nadadores intrépidos, impelidos pela fome, e, contra a expectativa geral, após muitos esforços, atingiram a outra margem, onde não encontraram vestígio algum do inimigo. O que descobriram foi a tranqüila morada de nosso valoroso guia rodeada de belo laranjal, cumprimento, tão agradável quanto completo, das promessas do velho e de todas as maravilhas que do seu pomar nos referira.
Não tardou que um dos primeiros exploradores dessa terra de promissão, lembrando dos companheiros de miséria, tivesse o mérito de, sem detença, atravessar de novo o caudal. Com a descrição animada de tudo o que defrontávamos — veio inflamar a mente daqueles que ainda haviam conservado algum resquício de iniciativa. Como a ausência, já muito sensível, do chefe nos deixasse larga autonomia, muitos foram os que, em tropel, correram à beira-rio, para tentar a passagem. Muitos a experimentaram: os mais fracos ou os menos favorecidos, traídos pelo desfalecimento, desapareceram na correnteza; outros dali, contemplando os felizes ocupantes da margem fronteira, tomaram-se como de desespero que quase desfechou supremo golpe nos restos da disciplina, sobrevivente a tantos desastres. Do próprio couro em que jazia quase agonizante ainda dava ordens o Coronel, umas, por vezes, incoerentes e inexeqüíveis, mas outras lúcidas, e práticas. Mandou que o corpo de caçadores a pé, o único ainda não contaminado pelo espírito de desorganização, atravessasse, quanto antes, o rio. Guarnecendo a outra margem, devia impedir o saque do pomar até que ele, comandante, ali pudesse ir ter a fim de proceder à justa distribuição de quanto lá havia.
De acordo com esta prudente determinação, teve o capitão José Rufino de fazer passar toda a sua gente - junta. Pensou, a princípio, na construção de uma jangada, mas faltavam-lhe materiais e, sobretudo, operários. Tomou-se de impaciência; podia contar com toda a sua tropa afeita a hábitos de austera disciplina e, em absoluto, obediente às suas ordens. Viu os soldados porfiarem entre si, no afã de facilitar a passagem dos oficiais. Foi ele próprio o primeiro a entrar dentro do couro, com as quatro pontas levantadas e amarradas em forma de saco (o que se chama pelota), a que um nadador puxa por uma corda presa entre os dentes. Assim se pôs à frente daquela massa tumultuosa de homens.
Não os perdíamos de vista. Quando atingiram o meio da torrente, ainda os ouvíamos, entre o marulho dos colchões, incitarem-se uns aos outros. Houve, segundo nos pareceu, então, a todos, um momento de luta e hesitação que nos fez por eles tremer, mas não tardaram a reaparecer, descambando para a outra margem, embora com grande descaída. Vimo-los, enfim, sãos e salvos chegar a fazenda do Jardim: era um consolo e uma esperança.
Longe de amortecer, redobrara a cólera de violência. Crescia o número dos enfermos e receávamos que, quando o rio baixasse, a ponto de nos dar mau, não tivéssemos remédio senão abandonar segundo grupo de moribundos, à mercê do inimigo inexorável; e só esta idéia nos causava a angústia de um pesadelo. Acabara o corpo de artilharia de se extinguir. Depois dos mais fracos tombados nos primeiros dias, tocara a vez aos mais robustos; caíam como para se aniquilar a arma a que devêramos a salvação. Nada, entretanto, do que pudesse evitar ou combater o mal haviam poupado os seus chefes. Dava o tenente Nobre de Gusmão, constantemente o exemplo da dedicação pelos enfermos, e os soldados imitando-o, entregavam-se à prática de socorros mútuos que os demais corpos ignoravam.
Tal o estado, cada vez mais deplorável, em que veio o dia 28 encontrar-nos. De tempos a tempos íamos examinar o nível das águas para ver se baixava; pois seria isto a nossa única via de salvação. Nada tínhamos que comer e a custo conseguíramos, a peso de ouro, arranjar algumas 1aran]as que os nadadores mais ousados traziam com largos intervalos. Foi este, aliás, o único conforto a que se não mostraram insensíveis o coronel Camisão e o tenente-coronel Juvêncio, na sede da agonia exasperada pela água.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.