Por Franklin Távora (1876)
Era uma modesta povoação em 1636, quando os esforços de Antônio Filipe Camarão que a defendeu com o valor que o caracterizava, não foram bastantes a tolher que ela caísse no poder dos holandeses, povo cheio de grandeza, e digno da admiração e do reconhecimento dos pernambucanos. Tendo-se mudado em 1685 para esta povoação a câmara da capitania de Itamaracá, passou ela por este fato à categoria de vila. Em 1742 deu-lhe d. João V um ouvidor que foi substituído em 1808 por um juiz de fora. A sua crescente prosperidade foi parte para que pela lei provincial de 5 de maio de 1840 fosse elevada à cidade.
De presente é Goiana a cidade pernambucana de mais nota, depois do Recife, a capital, e de Olinda que figurou, com brilho e bizarria inexcedíveis nos tempos coloniais.
Está em condições, não só de competir com as primeiras cidades interiores do norte e do sul do Império, e de se avantajar às capitais de algumas províncias que, por motivos de alta conveniência deixamos de apontar aqui, mas até de rivalizar com algumas cidades européias de que não pouco se fala nas narrações de viagens.
E se não, vejamos.
Tem um paço municipal muito decente na rua Direita, e uma matriz e mais oito templos que podem pertencer sem desaire a uma capital.
Tem uma praça de comércio, a qual se estende desde a rua chamada Portas de Roma (denominação do tempo dos jesuítas) até ao Beco do Pavão, para não dizermos até à rua do Meio, ou à rua do Rio.
Tem um teatro onde já tive ocasião de ver representar-se o "D. César de Bazar", os "Dois Renegados", a "Corda Sensível" e o "Judas em Sábado de Aleluia".
Tem cafés e bilhares, brinca o Carnaval pelo inverno, toma sorvetes pelo verão, dá alguns saraus pelo Natal; enfim, para estar inteiramente na moda, trata de iluminar-se a gás, de fundar uma biblioteca popular, e tem já fundada uma loja maçônica, denominada Fraternidade e Progresso, a qual tem prosperado notavelmente depois das últimas excomunhões que o público sabe.
É uma cidade onde se pode viver com poucos meios, porque os habitantes são hospitaleiros, os senhores de engenho fazem pingues presentes, os negociantes vendem fiado e não executam os devedores.
É plana, limpa, elegante e espalhada. Dela não poderia dizer Ampère o que disse de Goteborg, cidade da Suécia que tanto o encantou de tarde com suas casas altas e regulares, quando o desiludiu pela manhã sendo vista da torre da catedral, por não ser mais do que uma rua.
Goiana, não só tem muitas ruas, mas também muitos becos, verdade seja que alguns deles sem saída. Merecem particular apontamento as suas casas brancas que lhe dão certos ares de novidade, ou de noivado, ares que infundem indefinível alegria no espírito do hóspede. Se este é lido, entrando em Goiana, logo sabe que não entrou por engano em Saint Jean de Luz, ilustre cidade onde se celebrou por procuração o casamento de Luís XIV com Maria Teresa de Espanha, e que, ao dizer de um escritor, apresenta uma fisionomia sanguinária e bárbara, em conseqüência do extravagante uso de pintarem de vermelho antigo os batentes, as portas, as gelosias das suas habitações.
Há um provérbio espanhol que diz:
Quien no ha visto Sevilla No ha visto maravilha.
Teófilo Gautier pensa que mais justo fora que este provérbio se aplicasse a Toledo, ou a Granada, do que a Sevilha, onde nada encontrou particularmente maravilhoso, exceto a catedral.
O poeta sergipano, doutor Pedro de Calasans, que cedo foi arrebatado pelo infortúnio e pela fatalidade às musas do norte, dizia outrora, parodiando o provérbio espanhol:
Quem não ama Olinda, Não a viu ainda.
Assim será, assim é. Olinda semelha náiade gentil que adormeceu sobre arrelvado morro os pés banhados pelo Atlântico, a cabeça à sombra das mangueiras odoríferas.
Goiana, porém, tem também provérbio seu, e o seu provérbio é de tal significação, que, na singeleza em que se expressa, e de que o povo tem o segredo, insinua irresistíveis feitiços a favor dela.
Vê tu, meu amigo, como são expressivas estas reticências duvidosas, ambíguas, deliciosamente traidoras:
Goiana……………….
Que a todos engana.
Eu não conheço nenhum tão expressivo na ordem dos rifões populares.
O vocábulo — enganar — não tem nos nossos dicionários o sentido que a inteligência rica e lúcida do povo goianista lhe refere; tem somente a acepção ingrata que todos lhe sabemos.
Mas logo ao primeiro exame se vê que semelhante acepção está muito distante da que a imaginação deste grande povo liga ao sobredito verbo, quando emprega para exaltar o seu torrão natal.
A palavra — enganar, que faz parte do rifão, significa — seduzir, cativar, prender, mas seduzir com mil agrados irresistíveis; cativar com benignidade tão doce e fagueira, que é impossível deixar de ficar dela escravo; prender com tantas demonstrações afetuosas, com tamanha benquerença, que em vez de buscar fugir, cada vez se sente o prisioneiro mais desejoso de estar nessa suavíssima prisão, de não se desligar jamais dos seus deliciosos grilhões.
Cristóvão de Holanda dirigira em pessoa, como haviam feito todos os outros capitães-mores, o seu contingente na batida das matas do seu distrito.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.