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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias por si só bem pouco se importaria com a pobreza; estava afeito a suporta-la desde longo tempo. Mas cortava-lhe o coração ver a sua querida Lúcia, nascida e educada sempre no meio da abastança, sofrendo privações e quase reduzida à miséria, e condenada a trabalhar com suas próprias mãos para prover à sua subsistência, de seu pai e de sua irmãzinha. Blasfemava contra o céu e maldizia da Providência, que lhe negava sua proteção naquela nobre e santa tarefa em que se empenhava para arrancar à miséria aquela criatura digna do céu.

Desejava morrer, e a idéia do suicídio como um fantasma lúgubre lhe esvoaçava de contínuo pela mente. Mas lembrava-se de Lúcia, de Lúcia na miséria, e compreendia que era preciso viver para ela. Quem lhe poderia valer, se ele lhe faltasse? . . . arrancar-se a existência naquela ocasião era talvez roubar a Lúcia o último, se bem que fraco arrimo, que lhe restava neste mundo. Naquelas circunstâncias já não era somente o simples amante de Lúcia; considerava-se um irmão, um pai.

Elias, completamente desalentado, abandonou de todo os seus serviços, e estava como que de braços cruzados em frente de seu destino inexorável a contemplar-lhe a sinistra catadura, sem ousar lutar contra ele e esperando que o esmagasse.

Elias tinha-se estabelecido no Comércio de baixo, chamado de Joaquim Antônio, que fica rio abaixo, a perto de uma légua da povoação principal. Há dois dias, desamparado da esperança, tinha abandonado o trabalho, e não fazia mais do que cismar na sua triste sorte, entregue às mais pungentes angústias e à mais cruel perplexidade.

Na tarde do segundo dia, estando à janela da casinha que habitava, envolto em suas cismas ordinárias, um rapaz entregou-lhe uma carta. Abriu- a imediatamente; era de Lúcia e dizia assim:

“Meu querido Elias. A sorte começa a conspirar de novo contra nós. Eu pensava que, caindo em pobreza, ninguém mais poria os olhos em mim, e que poderia amar-te tranqüila e livremente, sem que a turba dos pretendentes, que outrora me importunava, viesse mais perturbar a nossa felicidade, por essa doce compensação que me trazia. Enganavame, ai de mim! . . . Um de meus antigos pretendentes reaparece, e solicita com mil empenhos a minha mão. É um moço não muito rico, mas negociante bem principiado, e dotado, segundo dizem todos, de excelentes qualidades. Meu pai insta comigo com todas as forças para que me decida quanto antes. Tenho esgotado sem resultado algum todas as minhas escusas, e já não sei de que meio lançar mão para me defender. Infelizmente este não é um aventureiro desconhecido, um moedeiro falso, que de um instante para outro pode desaparecer entre as grades de uma cadeia. É do país, e geralmente conhecido e estimado por suas boas qualidades, e promete mil arranjos a meu pai. Não preciso dizerte mais, meu querido Elias, podes ajuizar em que cruéis apuros me vejo de novo enleada. Nossa pobreza aumenta de dia a dia, e eu quase enlouqueço pensando nestas coisas. Aparece, Elias; só a tua presença me poderá inspirar resolução e coragem para arredar de nossa cabeça mais esta desgraça! Vem; eu te espero com ansiedade. Adeus! . . . ”

Acabada esta leitura, Elias entrou em acessos de furor; percorrendo a passos largos e precipitados a pequena sala em que estava, soltava bramidos de desespero, e chorava lágrimas de fogo, e batendo com a cabeça pelas paredes, arrancando os cabelos, vomitava blasfêmias e imprecações horríveis.

- Pois bem! bradava ele, já que o céu me não favorece, já não recompensa o trabalho honesto, condena a virtude às torturas da miséria, e só enriquece os ladrões, tomarei duas pistolas, irei me postar aí em qualquer ponto da estrada, e tomarei à força aos ladrões o que o céu desapiedado nega a um anjo. Que importa! . . . estou certo que em cada negociante que matar mandarei para o inferno a alma de um ladrão, e é lá o seu lugar. É um crime! ? não. . . pelo menos a consciência não me remorde. . . Não serei mais do que o agente da justiça do céu sobre a terra, já que nela não há nem sombra de justiça. Infames! . . . não contentes de enriquecerem-se à custa do suor e das lágrimas dos pobres, ainda querem lhes roubar a felicidade, e julgam-se com direito a isso, porque sabem absorver o fruto do trabalho dos outros! Oh! por Deus, ou pelo diabo, que não há de ser assim! . . . Este mundo! . . . este mundo é o inferno dos bons e o paraíso dos malvados. . . E portanto o remédio é ou livrar-se dele para sempre, ou alistar-me no número dos malvados. . . Mas. . . que estou eu a dizer! . . . eu endoideço! . . . Lúcia! minha Lúcia! é pois verdade que devo perder-te! . . . perder-te para sempre? ! . . .

Este estado de exaltação, que quase tocava ao delírio, durou por largo tempo, até que veio a fadiga e a prostração. Por fim atirou-se na cama que tinha ali mesmo na pequena sala; já a noite ia adiantada, e graças ao torpor do cansaço dormiu algumas horas. Com esse repouso acalmou-se um pouco a irritação de seu espírito. Quando acordou, já os galos cantavam. Levantou-se, abriu a janela para refrescar a cabeça abraseada ao sopro das brisas da madrugada. Ainda não era dia. Debruçou-se sobre o peitoril e depois de estar a cismar largo tempo com a cabeça embebida entre as mãos, murmurou consigo:

(continua...)

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