Por Bernardo Guimarães (1872)
Jupira gostava de caçar pássaros. Com um pequeno arco e flechas proporcionadas às suas forças, ela varava os jaós, inhambus, macucos, capoeiras e outras aves que abundavam naquelas florestas, e abastecia de copiosa caça o rancho de seu pequeno bando. Um dia à hora do pôr-do-sol ela estava sozinha com sua mãe à beira de um capão embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia tirado da cabeça. Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca distância. Um jaó começou a piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se no capão, sem que sua mãe, que estava ocupada em esfolar um tamanduá, desse fé daquele movimento.
O jaó é uma ave grande e excelente de se comer, mas muito arisca e dificílima de se caçar.
Os índios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma engenhosa astúcia para os atrair e apanhar. É de ordinário ao pôr-do-sol que os jaós costumam piar, vagueando pelas sombras da mata. O caçador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto ao lugar, em que os ouve piando, e começa também a piar, imitando-os com toda a perfeição. O jaó acudindo àquele chamado, que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se, e então o caçador atiralhe ou flecha-o muito à vontade.
Jupira, que era habilíssima neste manejo foi se esconder e começou a responder ao jaó. Mas este em vez de aproximar-se, ia-se afastando aos poucos, e piando cada vez mais ao longe. Jupira piando sempre e mudando de esconderijo em esconderijo o foi acompanhando, sem nunca conseguir avistá-lo, entranhou-se a uma grande distância pelo capão adentro. O sol já era entrado, e as sombras do crepúsculo começavam a escurecer a floresta; Jupira desanimada ia já voltando, quando sentiu pelas costas mão de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe – Jupira, agora és minha!– Era Baguari que usara daquela negaça para atrair Jupira e arredá-la dos seus. Assim a pobre menina cuidando ser a caçadora era a caça, que vinha descuidada cair nas mãos de seu feroz perseguidor.
Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a mão à boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na distância em que se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resistência, e procurou aplacar o seu feroz agressor.
– Espera, Baguari! – dizia ela arquejando de susto: – Não me faças mal; eu me entrego... mas larga-me.
– Não; tu queres enganar-me; mas é escusado; desta vez não me escaparás.
– Não quero te enganar, não, Baguari. Vamos onde está minha mãe...
ela me entregará a ti, e eu te juro que não hei de pôr dúvida nenhuma em ser tua.
– Por Tupã!... nesse laço não caio eu, minha formosa garça do Paraná. Já agora não sairás mais dos meus braços, quer tu e tua mãe queiram, quer não queiram.
– Pois bem, Baguari; sou tua; não te fugirei mais;... mas larga-me... tu assim me sufocas... ai...
Falando assim e debatendo-se Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus companheiros dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum ardil para arrancar-se dos braços do seu brutal amante. Melhor porém do que ela esperava, veio o destino ou o céu em seu auxílio. Pisada pelo índio uma enorme jararaca que dormia em uma moita de capim quase debaixo de seus pés, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas. O índio dá um grito de horror, sacode vigorosamente a perna, e atira longe o medonho réptil, que felizmente não o havia picado, recua em dois pulos com Jupira nos braços, larga-a no chão, e investe de tacape alçado sobre a cobra, que ia se esgueirando pelo matagal adentro. Jupira não perdeu um só instante; mal se viu solta dos braços do truculento cacique, enquanto este a rijos botes de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara desapareceu pela mata, e chegou suando e arquejante ao pé de sua mãe.
–Está morta!... – bradou triunfante o cacique. – Jupira!... Jupira!...
Jupira!... Onde estás?
Mas Jupira já estava longe.
Capítulo IV
Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava, já era noite e os outros bugres já ali reunidos estavam acendendo seus fogos.
– Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda assustada? perguntou Jurema a Baguari.
– Não lhe fiz mal algum, Jurema; ela é arisca e medrosa como a saracura do brejo.
– Tem medo de ti, porque não sabes amimá-la. A pomba foge do carcará, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocaz, que a beija e acaricia.
– Mas porventura sou eu algum jacaré do rio para ela fugir-me assim, e obrigar-me a negaceá-la como o jaguar que anda à espia da veada nova?... – Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te quererá.
– Não queira embora; há de ser minha. Para que me deu Tupã estes olhos, que enxergam mais do que os do gavião, e estes pulsos mais fortes do que os do canguçu?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.