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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Ao sair da mata, Flor avistou ao longe, no terreiro, o capitão-mór, sentado à sombra da oiticica, ao lado de D. Genoveva. Voltando-se para Arnaldo, que a seguia maquinalmente, mostroulhe o vulto do fazendeiro. 

— Lá está meu pai, que nos espera. 

— Chegando diante dele, filho, ajoelha e pede perdão. 

— De joelhos?… exclamou com voz surda e profunda o sertanejo, cuja alma entorpecia afinal sublevava-se. 

Flor compreendeu a emoção de Arnaldo e quis aplacar-lhe a revolta dos brios. 

— Eu ajoelharei também, disse ela com adorável meiguice. 

Estas palavras, porém, bem longe de serenarem o ânimo do mancebo, ainda mais o alvoroçaram, confirmando a suspeita de que só com êste ato de humildade obteria entrar de novo nas boas graças do capitão-mór. 

— Nunca! bradou êle, retrocedendo.

— Arnaldo! disse D. Flor. 

— Eu lhe peço, Flor, não exija de mim semelhante vergonha. Não posso, é mais forte do que a minha vontade. Se é preciso que eu ajoelhe, aquí estou a seus pés, mas aos pés de um homem, não. Morto que eu estivesse, as minhas curvas não se dobrariam. 

— Não é um homem, Arnaldo, é meu pai, respondeu a donzela, erguendo a fronte com altiva inflexão. 

— É seu pai, mas não é o meu, embora eu o respeite mais do que um filho. 

— Venha, Arnaldo, insistiu a donzela fitando o olhar imperioso. 

A alma do mancebo fascinada por êste olhar debatia-se numa cruel perplexidade. Flor travou-lhe o pulso e levou-o sem resistência. 

Quando, porém, a donzela subindo a encosta, assomou no terreiro, e que o vulto do capitão-mór destacou-se em frente, revestido de sua habitual solenidade, ouviu-se um grito sinistro como o que solta o gavião ao desabar da procela. 

Arnaldo, no momento em que Flor largava-lhe o pulso para ir ao encontro do pai, de um salto arrojara-se para trás e desapareceu na mata próxima, antes que as pessoas presentes a esta cena voltassem a si da surpresa. 

O capitão-mór, que se preparava para receber o rapaz e conceder-lhe finalmente o perdão já obtido pela ternura da filha, ergueu-se arrebatado pela cólera. Ao seu brado formidável acudiu Agrela com a escolta, e desta vez dirigidos pelo capitão-mór em pessoa, deram nova batida na mata à busca de Arnaldo. 

Justa acreditou que desta vez o filho estava irremediavelmente perdido, e a própria D. Flor, a-pesar-do império que tinha sôbre a vontade do pai, não se julgava com fôrças para obter novamente o perdão de seu colaço. 

Entretanto Arnaldo já ia longe. Muito antes que a gente da fazenda penetrasse na floresta, alcançara o lugar onde na véspera o tinha deixado Moirão, quando tão bruscamente dele se despedira. 

Imitando o canto da seriema, o que era um sinal dado a seu cavalo para que o seguisse, o sertanejo aproveitando a frouxa luz da tarde foi no rasto do Aleixo, que aliás não tomara a menor cautela para disfarçá-lo. 

Ao cabo de um estirão de caminho parou e observando pelo céu a direção do rasto, disse consigo: 

— Não há que ver, está no Bargado. Eu o sabia. Corisco! 

O inteligente animal acudiu ao chamado do senhor, que o montou mesmo em pêlo, e instantes depois corria pelo cerrado, como se trilhasse uma vargem aberta e descampada. 

É um dos traços admiráveis da vida do sertanejo, essa corrida veloz através das brenhas; e ainda mais quando é o vaqueiro a campear uma rês bravia. Nada o retém; onde passou o mocambeiro lá vai-lhe no encalço o cavalo e com êle o homem que parece incorporado ao animal, como um centauro. 

A casa da fazenda do Bargado ficava no meio duma chapada. De muito longe Arnaldo avistou os fogos que brilhavam no seio das trevas, pois já era noite fechada. 

Chegando a um lanço de clavina, apeou-se o mancebo e deu senha ao cavalo para avançar no mesmo rumo. O Corisco, prático nessas emprêsas, agachado por entre o arvoredo, aproximou-se até dar rebate aos cães da fazenda, que partiram em matilha a acuá-lo. 

No meio dos latidos, e dos gritos do vaqueiro a estumar os cães, ouviu-se uma voz cheia que dizia: 

— José Bernardo, amigo, não maltrate a menina! 

— Com certeza é a suçuarana, observou outra fala. 

— Se fôssemos conversar com a rapariga, Topam? 

— Depois da ceia, Aleixo Vargas! 

Antes de ouvir o nome do Moirão, já Arnaldo o tinha reconhecido pela voz, o que não lhe causou surpresa, antes confirmara a sua conjetura. 

Quando o Corisco recuando afastou a matilha para longe, o sertanejo que já havia tomado o lado oposto, acercou-se da casa com a cautela necessária para não ser pressentido. Era fácil emprêsa, pois o arvoredo prolongava-se até perto do terreiro. 

Da sala principal, que abria para a varanda, escapava-se o rumor de falas alegres e de risos festivos, intermeados com o tinir dos pratos e o triscar dos copos. 

Pela janela do oitão pôde Arnaldo observar de longe o interior. 

(continua...)

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