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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Sobre o trançado opulento que lhe cingia a nuca, trazia a moça um chapéu verde-claro, de pêlo de seda e copa alta, com uma fita branca e um ramo de rosas por tope. Atualmente esta parte do traje da formosa cavaleira seria um atentado inaudito contra o bom-gosto e tornaria horrível a mais gentil das amazonas, que pelo verão galopam nos passeios de Petrópolis. Naquela época porém era a moda, e em geral a achavam tão bonita, como a das botas que hoje trazem as senhoras. O caso é que o tal chapeuzinho verde, todo enfeitado, dava ao rosto da moça um arzinho pimpão, que enfeitiçava. 

A seu lado ia outra cavaleira mais idosa e cheia de corpo; essa porém montava de escancha como um homem. Era o uso antigo nas províncias do sul. As bandas do vestido aberto de chita, que lhe caíam a um e outro lado, descobriam até o joelho as pernas da gorducha amazona. 

Seguiam a alguma distância dois cavaleiros com um traje ambíguo entre paisano e militar; um deles vestia a farda da antiga milícia; o outro apenas tinha barretina e patrona do mesmo uniforme. Ambos porém traziam sobre os ombros o infalível poncho de pano azul, forrado de pelúcia vermelha. 

Pouco mais era de meio-dia. O sol abrasava, embora a espaços as baforadas da brisa mitigassem a calma. Crestada pelo sol, a macega parecia o pêlo arrepiado de um mula xucra. 

Os dois viajantes haviam interrompido por momentos uma prática bastante animada; o da farda, homem de 50 anos, magro, de barba cerrada, cogitava; o outro, rapaz de 25 anos, tendo passado as rédeas pelo dedo mínimo da mão esquerda, estava ocupado em preparar com a faca a palha para um cigarro. 

— Assim mesmo, Sr. Lucas Fernandes, estou quase apostando que a coisa há de dar em nada, disse o mais moço, tirando uma fumaça. Tantas vezes que os homens depois de tudo arranjado se arrependem! 

— Hein! respondeu o mais velho, caindo em si da distração. Que diz? 

— Digo que ainda tenho meu medo de ver tudo isto dar em água de barrela. 

— Medo tenho eu, Félix, de chegarmos tarde, quando já o negócio estiver acabado. Queria ter o gostinho de entrar com o coronel em Porto Alegre, para ensinar aquela cambada. 

— Tal e qual o senhor me disse, vai fazer um ano, e não passamos do Erval; agora talvez que fiquemos por Piratinim ou Camacã. 

— Se estou dizendo que o negócio desta vez é sério! Quando saía de Jaguarão, o Neto me disse: “Quem for patriota há de estar em Piratinim até o fim de agosto.” Vê você? 

— E onde foi ele? 

— Ninguém sabe ao certo; mas eu suspeito que foi longe entender-se com os castelhanos; não que precisemos deles, mas para ter as costas guardadas. Sempre é bom.  

— Pois olhe, Sr. Lucas, eu cá antes queria ter pelas costas um touro bravo, do que um castelhano manso. A maneira de guardar a gente as costas, é dar neles de rijo. O Neto bem sabe disso. 

— Ele lá sabe o que faz, que o tal de Buenos Aires, o Rosas, também está metido nisso. No caso de ser preciso, o sujeito nos ajudará a escovar o pêlo aos imperiais. 

— A falar a verdade, eu antes queria sová-los, a eles. Enquanto me lembrar do que fizeram aí por Bagé e Alegrete, que me contou meu pai, não se acaba esta gana que tenho de tirar uma desforra. Quer que lhe diga, Sr. Lucas Fernandes, eu estou que sentiria mais prazer em meter a faca no lombo de um castelhano, do que em abraçar a mais bonita rapariga de Buenos Aires. 

— E cuida você, que eu também não lhes tenho vontade? Mas é preciso paciência para suportar por algum tempo ainda; depois que nos tivermos livrado cá da cáfila dos imperiais, então é que os castelhanos hão de ver a cor do riscado. Eles pensam que é uma coisa, mas há de sair-lhes outra muito diversa. 

A este ponto foram os dois viajantes obrigados a interromper a conversa, por causa de um pequeno incidente. 

A mula em que ia a moça tinha empacado à beira da estrada, e resistia aos esforços da cavaleira. Com as orelhas espetadas, olhos ardentes e pêlo erriçado, o lindo e possante animal parecia farejar algum perigo oculto. 

— Que é isto, Catita? perguntou Lucas. 

— Esta mula hoje não está boa, Sr Lucas, não sei o que tem, disse a gorducha. Todo o caminho veio torcendo-se, e agora não quer andar! 

— Que remédio tem ela? acudiu Félix. 

— Não é nada, mamãe! disse Catita. 

— Depois levas aí um trambolhão? 

— Ora qual, Vidoca! atalhou Lucas. 

— Esqueci-me da minha esporinha, por isso está brincando comigo, tornou Catita a rir.

— Espere que eu a ensino. 

Félix avançou, vibrando com força o rebenque. 

— Heta, mula! 

Aquela interjeição enérgica soou ao mesmo tempo nos lábios do rapaz e na anca da mula, onde o látego estalou com força. 

A mula partiu escoiceando, no meio das risadas dos dois viajantes. Era destra cavaleira a Catita; apesar dos saltos do animal, ela manteve-se firme na sela, e sem perder a elegância de seus movimentos. Contudo dificilmente continha a mula, que irritada com o castigo corria forcejando por tomar o freio.  

Nisto ouviu-se ao longe o rincho sonoro de um cavalo. 

(continua...)

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