Por Visconde de Taunay (1872)
—Sabe, doutor, que não posso mais aturar esse alamão?... Aquilo é um mandingueiro, uma suçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu irmão... meu irmão, que presente me fez você! . . .
—Mas, que houve? perguntou Cirino.
—Olhe... se não fosse aquela carta, e a palavra que dei ao maldito... mil raios o partam, surucucu do diabo! potro melado!... já um bom balázio lhe teria varado os miolos.
—Que novidades há então, senhor Pereira? tornou a inquirir Cirino.
—Vim mesmo ate aqui para tirar este peso do coração...
—Mas...
—Sabe o senhor que aquele Mochu é pior que um tigre preto?... Parece homem à-toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquilo é uma alma danada... um sedutor...
—Sempre as suas desconfianças! observou Cirino.
—Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia... estar a lembrar-se da menina..- Procurar trazê-la a conversa?—Como está sua filha? pergunta-me ele sempre. —Esta boa, de uma vez para todas. E ele, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho: —Sua filha vai casar? — Vai, respondi-lhe todo trombudo. — Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta, seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hóspede, secundei-lhe enfarruscado: com um homem do sertão que há de amolar a faca na pele da barriga do mariola que vier mexer com a mulher dele. O alamão não se deu por achado e, com todo o sem-vergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguém da cidade.— Então, perdi a paciência: Mochu, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende: eu na minha, não quero ser anarquizado; ele, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas histórias, isto, aquilo, aquilo outro, et coetera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa língua que pouco entendi...
— Não fez bem, atalhou Cirino.
—Boa dúvida! Aquilo é uma alma danada... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu... enfim, um caçador de anicetos: está dito tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Meteu-se no mato perto da minha roca, onde eu trabalhava com os meus cativos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois minhocões. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma borboleta grande já fincada num pau de pita. 0 alamão pôs-se a pular como um cabrito.
—É novo, me disse ele, é novo! —Novo o que, Mochu?—Este bicho, ninguém o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!...
Quando ouvi aquilo, fiquei tão passado, que não pude engolir o cuspo da boca... Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!. Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso meter uma bala naquele patife como bem merecia... mas também e demais tê-lo em casa... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrário como mulher que é, havera de me dar que fazer... Também não sei por que é que o Manecão não chega... só ele é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal alamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a sossegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto assim não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos. .. mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vai sofrendo, porque muitas vezes largo a roga e ponho-me a correr atrás dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôs em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...
E Pereira, de tão atribulado que trazia o espírito deixou-se cair num cômoro de terra.
Cirino, defronte dele, ficara de pé e pensativo.
Afinal, depois de breve dúvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.
—Senhor Pereira, disse bastante comovido, acho que o alemão faz mal em andar batendo língua em pessoa da sua família e dou razão às suas inquietações...
—Ah! vosmecê é homem de confiança.
—Mas, continuou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem ele alguma razão... É quando... lhe deu... conselho... que o senhor não casasse sua filha... assim... sem perguntar a ela... se... enfim não sei... mas talvez o Manecão lhe não agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, aproximando a face, repentinamente incendida de cólera, junto ao rosto de Cirino:
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.