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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Ao recomeçarmos a marcha, nem sequer experimentou montar a cavalo, carregaram-no para um armão, onde o puseram ao lado do tenente Sílvio, já agonizante; dois cadáveres, um perto do outro. Era-lhe a impassibilidade completa; mãos cruzadas sobre o peito com o chapéu desabado sobre os olhos, procurava subtrair-se aos raios do Sol deslumbrante que a esta triste cena iluminava. Queixando-se Juvêncio de tão ofuscante claridade, corremos em busca de um guarda-sol que vimos aberto; não conseguimos reprimir um grito de dor, encontrando sob este abrigo um dos mais amáveis moços da coluna, o alferes Mirá, que expirava por entre indizíveis padecimentos. De manhã ainda o víramos válido e bravo; derreado agora, sobre o cavalo, mal se sustinha entre os braços de um patrício e amigo, o capitão Deslandes, que não tardaria em o entregar à terra.

Determinou-se o ponto do pouso: no meio da mangueira de Lopes. Estava a findar o desempenho completo da missão do velho guia e este dever parecia ser o último liame que à vida o prendia. Dissera-nos algumas horas antes: "Reparem neste campo verde-escuro; é o meu retiro. Não chegarei até lá. Os senhores é que breve estarão em Nioac".

Enfraquecido, arcado, caminhava cabisbaixo sobre o arção da sela.

Escaparam-lhe de repente os estribos e rolou ao chão, assaltado pela cólera. Colocado sobre um reparo, reanimou-se um pouco, e ainda assim dirigiu a marcha. Como o genro, Gabriel, quisesse atalhar por um capão, recomendou com voz sumida: "Contornem 0 mato, que é muito sujo". Ao cair da noite estávamos à vista da colina, ao pé da qual se acha o retiro, o antigo local do rodeio de gado da estancia, que Lopes de longe nos mostrara. Declinava o Sol, do seu disco grandes raios alaranjados se desferiam, na fímbria do horizonte, realçando a mais admirável perspectiva, tão bela que a memória no-la reproduz ainda agora. Estes esplendores eternos da natureza ainda mais pungentes nos tornavam o sentimento de nossa próxima ruína. Absorvia-nos esta contemplação quando um esquadrão paraguaio chegou a galope com a intenção de cortar nalgum lugar a nossa linha indecisa e descontínua. A parada instintiva que, por toda a parte, se realizou, preservou-nos do ataque.

Acampamos naquele local, tendo vencido quatro léguas de estafante marcha, privados como fôramos de alimentos e de sono; tangia-nos a necessidade e entramos nos cercados do retiro.

Foram o coronel Camisão, o tenente-coronel Juvêncio e o guia Lopes instalados num galpão arruinado, perto do qual acendemos grandes fogueiras, para ver se os aquecíamos. Alguns limões e laranjas, que lhes foram dados, acalmaram-lhes um pouco a sede. Quis ainda o Dr. Gesteira experimentar um medicamento. "Dr., disse-lhe o Coronel, trate dos soldados. Não se canse inutilmente comigo, sou homem morto". A calma não o abandonou um só momento. Quando muito deixava escapar alguns gemidos surdos, ao sofrer torturas cujo exacerbamento fazia gritar e estrebuchar os companheiros de agonia. Passou-se a noite, para todos, numa agitação enorme. Aos lamentos respondiam outros lamentos; aos horrores da moléstia acresciam os desfalecimentos da fome.

Na manhã de 27 ainda de nós se aproximou o inimigo, fazendo menção de nos disputar a passagem do ribeirão a que dá o nome o retiro. Conteve-se, porém, ante a atitude do 17.° de voluntários, que formava a nossa retaguarda, e assim continuou a nossa marcha, como a da véspera. Já sem voz, era o coronel Camisão carregado sobre um reparo de peça, Lopes sobre outro e 0 tenente-coronel Juvêncio, assim como vários outros oficiais e inferiores, em redes. Durante a última parada três haviam morrido. A meia légua do retiro atingimos afinal a margem do Miranda, demasiado abatidos e acabrunhados, porém, pare podermos experimentar a alegria com que contáramos. Via-se, à margem oposta, a case do guia, o teto hospitaleiro onde o viandante sempre encontrara boa acolhida e a abundância de tudo. No momento de ali chegar expirou o nobre velho, insensível à vista daquilo que tanto amara. Foi enterrado no meio do nosso acampamento, em terra que era sua. Os amigos lhe puseram sobre a sepultura tosca cruz de madeira.

CAPÍTULO XVIII

Chegada às margens do Miranda. Mantém-se o inimigo afastado para evitar o contágio da cólera. O Miranda não dá vau. Alguns homens o atravessam, entretanto, a nado, trazendo a boa notícia da existência de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caçadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no. Morte do tenente-coronel Juvêncio. Morte do coronel Camisão. Substitui-o, no cornando, o major José Tomais Gonçalves. Instala-se um vaivém sobre o riso. Chegam abundantes as laranjas. Seu efeito benéfico sobre os esfaimados e coléricos.

(continua...)

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