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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Compreendendo que se tinha excedido na revelação do seu juízo íntimo, Maurícia acrescentou, imediatamente:

— Ouviu-o falar alguma vez em mim depois da minha reconciliação com meu marido?

Sinhazinha guardou silêncio por alguns momentos, parecendo procurar na lembrança a resposta que aí não podia achar.

— Ele só tem para mim atualmente ódio, desprezo, ou, pelo menos, indiferença, concluiu Maurícia.

— Por quê?

— Porque vendo-me tornar à companhia do homem, que me infligira as maiores humilhações, inferiu talvez ou que eu me não sinto, ou que tudo quanto me ouvira dizer a respeito desse homem era pura invenção. O Dr. Ângelo, Sinhazinha, não há de formar ainda de mim o juízo que já formou. Aos seus olhos, eu devo ser hoje uma mulher vulgar, senão desprezível. Quantas vezes não terá dito consigo: “Como me enganei com ela!” E, demais não poderia eu fazer para dissuadi-la de prosseguir no caminho escolhido pelos seus sentidos ou pela sua alucinação? O seu apelo a mim, Sinhazinha, é de todo ponto inútil. Em nome de que sentimento deveria eu falar-lhe a seu favor? Que autoridade tenho? Que armas poderia empregar?

Sinhazinha, corando de pudor, pôs um dos braços à roda do pescoço de Maurícia, e em voz branda e tímida respondeu como quem lhe segredava ao ouvido grave revelação.

— A senhora tem a autoridade do seu talento, tem as armas das suas graças a que ninguém resiste.

— Quanto você é ingênua! - exclamou Maurícia.

— Que quer que eu lhe diga? - respondeu a jovem lacrimosa. Toda a minha confiança, toda a minha esperança está posta na senhora. Diz-me o coração que se a senhora tomar a si a minha causa ela triunfará. Condoa-se de mim, minha querida amiga. Este amor é hoje a minha existência; sem ele, que será de mim? Olhe, eu tenho refletido muito no meu estado e nos meios de conjurar os males que sobre ele pesam. Há mais de um mês que o Dr. Ângelo não aparece em casa do Sr. Martins; mas se ele souber que a senhora vai passar alguns dias na estrada, ele há de voltar; e talvez com ele volte para mim a felicidade. Seja o meu bom anjo, D. Maurícia. A ocasião é oportuna. Há mais de três meses que a senhora não vai ao Recife.

Maurícia, sem dizer sim, nem não, levantou-se a modo de distraída por oculto pensamento. Entre as músicas que estavam sobre a mesa, escolheu uma que pôs na estante do piano e entrou a tocar e a cantar. Sua voz tinha particular ternura. Eram graciosas as harmonias, mas tristes, quase dolorosas.

CAPÍTULO XVI

O que Sinhazinha contou a Maurícia não era senão a verdade. Apenas Ângelo soube, por boca de Martins, que a cunhada ia unir-se outra vez ao marido, considerou despedaçados os estreitos elos que o tinham tão intimamente ligados aos seus encantos. Ao princípio, só teve para ela indignação e desprezo; mas posteriormente, refletindo melhor sobre as circunstâncias fatais que seguem de perto o casamento, tratou de esquecer-se dela, julgando-a antes digna de sua compaixão do que do seu rancor. Então, seu coração readquiriu a perdida independência. Muitas vezes, meditando em silêncio, concluía a ordem das suas idéias por este conceito: “Ando por entre duas sepulturas - a do meu pai e a do meu amor.” Parecialhe que nunca mais havia de ressuscitar este em seu coração como aquele não havia de ressuscitar mais na vida. Considerava essas duas perdas irreparáveis e equiparava a importância de uma à da outra. No meio das suas tristezas, uma única consolação servia-lhe de amparo e impedia que caísse de todo desalentado e vencido - era a de ser útil à mãe e aos irmãos menores. ”Esta herança que me deixou meu pai - dizia, referindo-se aos entes queridos que tinha a seu cargo - hei de defendê-la e zelá-la, não só porque desde o momento em que não a tiver comigo, me considerarei desligado inteiramente deste mundo, e só me restará desaparecer do banquete da vida.”

Tal era o estado da sua alma , quando uma tarde, passeando pela estrada, se lhe deparou Sinhazinha de pé no portão, suavemente beijada pelos últimos raios do sol poente. A menina trajava vestido de azul desmaiado como o do céu por noites de luar. Tinha uma saudade entre os cabelos. Os olhos lânguidos e ternos, ela os volvia brandamente para o lado donde ele se encaminhava. Vendo-o, corara ligeiramente. Este excesso de pudor produziu no coração de Ângelo, que ele julgava profundamente adormecido, senão morto, indizível impressão semelhante à que experimenta aquele que acorda de diuturno sono. Por essa ocasião, afirmando a vista no rosto da menina, descobriu-lhe modestos encantos em que nunca fizera reparo. Não tinha o intento de lhe falar, mas misteriosa fascinação o reteve junto dela por alguns momentos. Ouvindo-lhe a voz, achou-a engraçada. “Onde andava eu - disse consigo, que nunca adverti nesta suave e tímida harmonia?” Dois meses depois deste encontro e destas observações, os dois jovens, entendendo-se, eram como dois espelhos postos um defronte do outro - refletiam-se e iluminavam-se mutuamente.

(continua...)

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