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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Os piquetes que penetram nas de Serinhaém, Água Preta, Muribeca, Merueira, S. Lourenço, Catucá, Iguaraçu, Goiana, Pau d'Alho, Limoeiro, recolheram-se mais tarde às respectivas sedes, depois de terem realizado importantes capturas.

Assassinos de profissão e de fama, que, protegidos pelas trevas da noite e pelas sombras das selvas virgens, tinham horrorizado durante muitos anos as povoações pacíficas, apareceram à luz do dia, trazendo nos pulsos cordas e algemas que bem denotavam que a justiça dos homens, reflexo ainda que pálido da justiça de Deus, cedo ou tarde restaura os seus foros e faz-se respeitar como uma fatalidade reparadora.

O capitão-mor de Santo Antão, justamente vangloriado por ver no seio de sua força o Joaquim e o Teodósio, cuja fama ofuscava a de todos os criminosos, com exceção somente do Cabeleira, seguiu imediatamente, à frente dela, para o Recife a apresentar-se ao governador.

No caminho de Afogados reuniu-se ela com a força que, tendo aguardado nesse lugar aquele dia, designado para a geral batida das matas, se movera pela manhã em direitura às que lhe ficavam nos limites ocidentais. As duas forças chegaram ao Recife formando uma só expedição que foi recebida pelos habitantes com inequívocas demonstrações de consideração e reconhecimento pelo relevante serviço que haviam feito.

Tantos eram os crimes cometidos pelo Cabeleira, e estes crimes haviam sido revestidos, na sua maior parte, de circunstâncias tão odiosas, que, quando se divulgou que o afamado bandido tinha escapado às malhas da rede da justiça, mostras de justo pesar vieram substituir-se nos semblantes de todos à expressão do regozijo recente que havia manifestado a população.

Com raras exceções, não se contava família, desde o Recife até o alto sertão, a quem a pela, a faca ou o bacamarte do terrível matador não houvesse roubado uma existência querida.

Por isso, era ele o alvo em que todos haviam posto a mira, e perdê-lo montava perder a diligência, ao parecer da maioria.

Alguns, não sem razão, mostravam-se receosos de que, quando menos se esperasse, ele viesse forçar a cadeia do Recife onde tinham sido postos a ferro os novos presos, e restituindo-lhes a liberdade de que tão mau uso haviam feito, se pusesse com eles novamente em campo para matar com maior ferocidade que dantes, roubar sem tréguas, incendiar povoações, reduzir tudo a sangue, ossos e cinzas.

O governador entretanto mal podia conter a. sua satisfação diante do resultado das providências que ele próprio havia indicado para a extinção dos bandos dos criminosos que infestavam a província.

Ele conhecia melhor do que o povo e os figurões da vila e da capital, as dificuldades, algumas delas invencíveis, que se atravessam naturalmente diante de expedições semelhantes. Ele sabia que perseguir através do deserto, para reduzi-los à prisão, homens que vivem como as feras, e com elas, no seio de escusas brenhas, de regiões inóspitas e desconhecidas, é empresa para grandes ânimos, raros em todos os tempos e em todas as terras, máxime naquelas terras em que, como em todo o Brasil então, o importante serviço da polícia está por ser organizado, à míngua de pessoal apto para isso, de recursos pecuniários, de vias de comunicação interior, de prisões e de outros muitos elementos indispensáveis a este grande mister.

A cadeia, que por poucas alterações passou há poucos anos a fim de servir, como serve, para casa do júri e do tribunal da relação, tinha sido dada por pronta pelo coronel de engenheiros Costa Monteiro, à câmara nos fins de 1732, e preenchia todas as condições de segurança pela sua solidez. Não obstante, ordenou o governador que a sua guarda fosse confiada a forças duplas que tornassem impossível qualquer tentativa de invasão ou de arrombamento. As vizinhanças ofereciam o aspecto de uma praça de armas, principalmente dos lados do norte e leste onde a vigilância nunca seria demasiada, por oferecer o rio destes lados fácil e natural acesso ao edifício.

As pessoas de sua intimidade que lhe manifestavam descontentamento por não ter sido preso o Cabeleira, respondia o governador:

— Há de chegar a sua vez. Confio muito em Cristóvão de Holanda Cavalcanti que ainda não deixou de corresponder aos intuitos do governo sempre que se trata do proveito da colônia.

Cristóvão de Holanda Cavalcanti, que trazia, como se vê, o nome que seu pai, sargento das ordenanças, ilustrara por ocasião da memorável Guerra dos Mascates, era o capitão-mor de Itamaracá, e achava-se a esse tempo em Goiana.

Goiana pertencia então à jurisdição de Itamaracá, que deixara de ser em 1763 capitania independente, por havê-la comprado d. João V a José de Góis, para incorporá-la na capitania de Pernambuco, vendida à coroa em 1716 pelo conde de Vimioso, d. Francisco de Portugal, único genro de Duarte de Albuquerque Coelho, 4.° donatário de Pernambuco.

(continua...)

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