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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Surgiu à porta uma velhinha, tendo na mão uma candeia de ferro, de luz frouxa e vacilante.

CAPÍTULO XXII

No quarto da enferma, apesar da sua pobre simplicidade, reinava uma ordem e asseio, que contrastava com o aspecto miserável do resto da casa. O leito bem composto era guarnecido de um transparente cortinado cor-de-rosa, e em frente dele sobre uma pequena mesa de jacarandá de pés torneados, via-se um lindo oratório dourado, diante do qual ardia uma vela de cera entre duas jarras cheias de viçosas e fragrantes flores. Parecia mais uma gruta mística e perfumada, um voluptuoso ninho de amor, do que o quarto de uma moribunda.

Margarida estava sobre a cama, meio deitada, meio assentada, com as costas apoiadas na cabeceira, os braços cruzados e a cabeça pendida sobre o peito.

À primeira vista não parecia uma pessoa que estava precisada, dos últimos socorros da religião. O rosto nada tinha de desfigurado, e estava fresco e corado, e a moça parecia estar no gozo da melhor saúde, e de todas suas forças. Examinando-a porém mais atentamente, notava-se o arquejo ansiado e violento de seu peito, o coração pulsar-lhe forte e descompassado de modo assustador, e na luz dos olhos um não sei quê de sombrio e desvairado. Via-se que aquelas duas rosas excessivamente vivas, que lhe tingiam as faces, não podiam denotar um estado normal, e eram resultado de profunda perturbação na circulação arterial.

A velha apenas introduziu o padre, retirou-se com a sua candeia.

Mal deu com os olhos na moça, o padre estacou de repente, fez um gesto de espanto, e olhando inquieto ora para a porta, ora para o leito, dava mostra de querer sair precipitadamente. Seu rosto cobriu-se de medonha palidez e suas feições se transtornaram de modo horrível.

Seu primeiro impulso foi de fugir depressa e sem dizer palavra; mas hesitou; não podia negar os auxílios de seu sagrado ministério, a quem os implorava em artigo de morte. Foi-lhe mister um esforço sobre-humano para dominar a sua perturbação.

Desde o primeiro momento, Eugênio e Margarida se haviam reconhecido, e por alguns instantes se olharam mudos e atônitos sem ousarem proferir palavra.

Margarida estava deslumbrante de formosura. As madeixas opulentas de seus compridos cabelos, rolando-lhe em torno dos ombros em um denso e escuro nevoeiro, davam o mais esplêndido realce ao busto encantador; os grandes olhos negros, cheios de uma luz sombria e melancólica, fixos sobre o padre eram como brandões ardentes e sinistros, que lhe queimavam a alma.

O padre esforçou-se em compor a fisionomia, procurando dar-lhe uma expressão calma e severa. Assentou-se gravemente à beira do leito, e cruzando as mãos sobre o peito:

— Não é a Sra. Margarida, que estou vendo, e com quem estou falando? perguntou com voz surda.

— Bendito seja Deus! exclamou a moça com vivacidade, e levantando as mãos ao céu. — Há quanto tempo não ouço esta voz!... É ela mesmo; é Margarida, senhor padre!...

— E quer se confessar?...

— Sim! sim!... que boa sina o trouxe aqui!... graças a Deus... morro consolada... Eugênio!...

Falando assim Margarida delirante de prazer estendia os braços para o padre.

— Senhora! — retorquiu o padre levantando-se em sobressalto, e dando à voz uma inflexão severa — lembre-se que sou um padre, que venho confessá-la... mas... que é isto?... — continuou olhando atentamente para Margarida — vejo-a tão sadia e corada!... por Deus, que não se acha em estado de pedir confissão!... é um laço diabólico, que me estão armando! A senhora não precisa de meu ministério; eu me retiro. Adeus, senhora!

— Senhor padre, eu não sabia que o senhor estava na terra. Foram chamar o vigário... veio o senhor; foi Deus que o mandou. Por piedade, não se vá; não me deixe morrer sem confissão... eu me acho muito mal...

— Muito mal! não parece... que está sofrendo então?

— Sofro muito, muito!... parece que a cada momento se me rebenta o coração — mas agora... como o senhor veio, sinto-me feliz; já não morro tão sozinha... tão desamparada.

— Desamparada!... pois onde está seu marido?

— Meu marido!... exclamou a moça atônita. — Tenho eu algum marido?...

— Pois a senhora não casou-se!?

— Eu? quem lhe disse isso?...

— Disseram-me; então não é verdade?...

— Não; nunca!... quiseram casar-me, isso sim; mas eu nunca quis... Meu Deus! por que haviam de enganá-lo assim?...

— Ah! meu pai! meu pai! — murmurou consigo o padre agora compreendo tudo... para que semelhante mentira?... Pobre Margarida! — continuou dirigindo-se à moça — como zombaram cruelmente de ti, e de mim!...

— Isso pouco importa; estou agora bem satisfeita. O que me afligia era pensar que ia morrer sem nunca mais torná-lo a ver.

— Mas, Margarida, eu sou agora um sacerdote...

— Que tem isso? assim mesmo quero-lhe bem... que mal lhe pode fazer o amor de uma moribunda? é padre?... fez muito bem; quem sou eu, pobre desgraçada, para o impedir de seguir uma carreira tão bonita... veja... eu estou bem contente, e dou louvores a Deus...

— Ah! Margarida, não me fales assim.

(continua...)

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