Por Bernardo Guimarães (1872)
- Sossega, minha querida Lúcia; não irei longe. O teu amor, assim como me enche o coração de felicidade, dá-me também toda a coragem e toda a confiança no futuro. É impossível que Deus não abençoe o trabalho de quem se esforça para amparar e fazer a felicidade de um anjo, como tu és. Mas olha, Lúcia, não quero, não devo pedir-te a teu orgulhoso pai, enquanto desta destra que vou oferecer-te, não puder escorregar um pouco de ouro.
- Ah. . . mas se isso não for possível, me abandonarás? . . .
- Nunca, minha Lúcia, nunca! serei teu, sempre teu.
- Basta! . . . adeus! já estamos aqui há muito tempo; alguém pode nos ver. . .
- Um instante ainda: escuta, Lúcia. Da minha malfadada fortuna do Sincorá restam-me ainda alguns destroços. Vou pó-los em jogo. Não sairei destes arredores. Saberás notícias minhas, e eu virei ver-te todas as vezes que puder; não sei que pressentimento me diz que seremos felizes, muito felizes. Adeus.
- Adeus. . . não te esqueças de mim e não me fujas mais.
- Não; nunca mais: eu te juro. . . por este beijo. . . mais este. . . e mais ainda. Adeus!
E dizendo isto Elias cingiu a moça a seu peito, e lhe deu um beijo em cada uma das faces e o último na boca. Era a primeira vez que tal ousava.
XV – ABNEGAÇÃO
O garimpeiro é como o jogador; sua esperança está sempre no seio da grupiara, como a do jogador nas cartas do baralho, nos dados ou no tabuleiro verde do bilhar; isto é, sua felicidade dorme na urna do acaso, de onde as mais das vezes nunca sai. Por mais que sejam os reveses com que a fortuna os maltrate, por mais que repila e os calque aos pés, esses cegos e pertinazes amantes estão sempre de rojo a mendigar favores aos pés daquela cruel e caprichosa amásia.
Elias possuía ainda algum dinheiro e objetos de valor, restos que tinham escapado à depredação de seu execrável protetor do Sincorá, e que podiam servir de princípio a novas especulações. Elias, que já tinha garimpado muito, tinha certo pendor natural para este gênero de vida; e apesar de ter dissipado o melhor de seu tempo e de seu dinheiro em explorar minas de diamantes, sem outro resultado mais do que contínuas perdas, nem assim perdera a fé em que estava de que do chão havia de lhe brotar a riqueza e a felicidade. Esta era a crença firme do seu velho camarada, crença que por muito repetida não deixava de fazer profunda impressão na imaginação algum tanto fatalista e supersticiosa de seu jovem amo.
Elias costumava também ter sonhos matizados de rubis e diamantes, e além disso, como já ouvimos da boca do velho Simão, uma cigana lhe predissera que sua estrela era de pedra. O amor não contribuía menos poderosamente para inspirar-lhe aquela resolução; suspirava impaciente pelo momento em que pudesse ver-se para sempre unido a Lúcia, e para esse fim só é que desejava enriquecer, e enriquecer depressa. Ora, a não cair do céu, só do seio da terra poderia ver surgir de um dia para outro uma fortuna. Demais a questão era de pouco tempo; em poucos meses, em poucos dias, em algumas horas mesmo poderia ficar resolvido o problema de seu destino. Elias era audaz e resoluto; com o primeiro sorriso de Lúcia voltara-lhe toda a sua coragem e seguridade, toda a sua confiança no futuro.
Comprou datas, engajou praças, e começou a trabalhar com atividade e ardor inconcebível. Mas ah! aquela terra da Bagagem para ele parecia ser amaldiçoada; parecia que o diamante sumia-se do lugar onde tocavam suas plantas!
Tinha-se escoado um mês, e com ele grande parte dos recursos de Elias sem o menor resultado. Montões de cascalho bruto aglomerado em torno das grupiaras, eis o fruto único que se via do trabalho do infeliz moço.
Durante esse tempo duas vezes viu Lúcia, mas com o coração pesaroso e cheio de tristes presságios não ousou comunicar-lhe o mau êxito de suas explorações, e embalou- a com vagas esperanças, que ele mesmo não alimentava. Mas nem assim desistiu ainda. Coragem! . . . dizia ele consigo. Mais um pouco de paciência! . . . mais quinze dias; mais um mês! às vezes a sorte do jogo está na última cartada.
E mais quinze dias, mais um mês se foram de insano trabalho, e de ansioso esperar, sem que a ingrata grupiara lhe entreabrisse nem mesmo um leve sorriso de esperança.
Elias já tinha o coração curtido de decepções; mas nem por isso este último insucesso deixou de lhe amargar cruelmente. Depois de tantas tentativas malogradas, depois de tantos e tão cruéis reveses, esbarrava enfim na muralha impenetrável do impossível. Cansou de lutar, e o desalento calou-lhe fundo pela alma adentro.
- Pobre ainda, meu Deus! exclamava o infeliz; pobre sempre, e cada vez mais pobre! e não poder dar a Lúcia, pobre ainda mais do que eu, senão a miséria em troca de seu amor! Ah! céu de bronze, que deixas exposta aos mais duros rigores da sorte a mais pura e a mais bela de tuas criaturas! ah! terra maldita, que escondes tesouros em teu seio avaro e deixas perecer à míngua o mais lindo dos seres, a mais formosa flor que te adorna a face! . . .
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.