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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

José Luís ficou cheio de gosto e inquietação com o reaparecimento da mãe de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados e precauções. Jupira sem que ela o soubesse, não andava sem uma sentinela à vista. Era um primo seu, um sobrinho de José Luís, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais velho do que ela, rapazinho vivo e esperto como um diabrete. Não tendo podido parar no seminário em razão de seu gênio trêfego, indócil e insubordinado, freqüentava como externo a escola de primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante o dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da velha caseira de José Luís.

Todavia apesar de todas essas precauções, uma bela manhã Jupira não amanheceu em casa. Tinha arranjado modo de trepar pela parede, e como a casa era de telha-vã, isto é, sem forro no teto, descobriu um pedaço de telhado, saltou fora, e voou para as selvas em companhia de sua mãe.

Capítulo III

Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao coração de José Luís do que a primeira. Já amava extremosamente sua filha, e tinha a mais terna solicitude por aquela interessante menina, cuja criação lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um só momento vira esvaecer-se. Era à semelhança de uma flor peregrina e rara, em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia porém, quando pela manhã vai visitar o tenro botão, que de dia a dia anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho, murcha e perdida para sempre.

José Luís fez altas diligências para reaver sua filha, mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para reivindicá-la armar uma bandeira e levar a guerra a todas as tribos selvagens, como outrora Menelau levou toda a Grécia armada aos muros de Tróia para reconquistar a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. Mas não lhe era isso possível, e contentava-se em dirigir súplicas ao céu, e fazer promessas a Nossa Senhora Mãe dos Homens para que lhe restituísse a filha.

Nas selvas Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das campinas, mas esquiva e soberba como a ema, rainha dos chapadões. Suas graças fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a e adorando-a como a um manitô caído do céu; mas a nenhum deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas. Baguari era chefe de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira, encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.

Mas Jupira fugia dele como a tímida lontra foge do jacaré, ou como a pomba se esconde do gavião. Era à sombra de sua mãe que vinha arquejante e espantada como a caça acossada pelo jaguar, abrigar-se das perseguições do cacique. Temerosa de cair-lhe nas garras a menina mal ousava arredar-se alguns passos da companhia dos seus.

Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das intenções de Baguari, furiosos de raiva e de ciúme, e não ousando opor-se de viva força ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se uns aos outros, uniam-se para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e seguiam e vigiavam por toda a parte a formosa menina a fim de obstar a que o cacique lograsse seus intentos. Assim Jupira sem querer e sem o pensar tinha sempre ao pé de si uma escolta ativa e vigilante para a defender contra qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como sói acontecer entre as brutas alimárias, pouco acima das quais se achavam aqueles selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terrível; membrudo e robusto como a anta, ágil e veloz como a onça, já tinha sufocado nos braços um dos seus rivais, e traspassado o coração a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse da formosa Jupira. Mas era só e detestado por todos, e eram muitos contra ele. Por isso também da parte dele havia constrangimento e receio.

O tronco do ipê já se tinha de novo toucado de seus tufados cachos de flores amarelas. Baguari que conforme a promessa de Jurema, estava esperando com impaciência aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe: – Olha, Jurema, o ipê já está florescendo. É tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.

– Ah! minha mãe! minha mãe! dá-me antes a um sucuri, – exclamou Jupira, atracando-se com a mãe.

– Jupira, – disse Jurema para sua filha, – olha que Baguari é forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha.

– Se minha mãe teima, eu irei lançar-me na lagoa dos sucuris retorquiu a menina com firmeza.

A lagoa dos sucuris era um banhado, que por ali havia e onde existia enorme quantidade desses formidáveis répteis. Quem nela caía era irremissivelmente devorado pelos monstros. Jurema sabia, que sua filha era bem capaz de pôr em prática a sua ameaça, e disse ao cacique:

– Estás ouvindo, Baguari? – ela não te quer ainda. É que ainda não é tempo. Espera ainda, Baguari;... mais tarde...

– Cala-te, filha de Anhangá! – bradou o índio rugindo e batendo o pé com força – não quero mais te escutar, boicininga enganadora... ou hoje ou nunca!...

Ouvindo os gritos e vendo a atitude ameaçadora do cacique, os outros bugres, que estavam de alcatéia, aproximaram-se de arco e flecha em punho, murmurando palavras de ameaça. Baguari lançou-me de revés um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se vagarosamente rosnando como um tigre enfurecido.

Vendo que nem por bem, nem por violência lhe era possível obter a posse da virgem indiana, Baguari que não desistia de seus intentos sobre ela, recorreu às ciladas.

(continua...)

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